Células para o resgate



01.07.13 00:44 - LOLA TORRENT |ALICANTE.


A ataxia de Friedreich é uma doença que tem a sua origem num problema genético. Geralmente ocorre na infância, quando as crianças estão entre oito e 15 anos de idade. Quando ele aparece, ele paralisa-los para sempre. A incapacidade de mover-se não é o único sintoma associado com a doença. Eles também podem sofrer de doenças cardíacas graves e de problemas ósseos, tal como a escoliose, embora ambos os problemas sejam tratáveis. O que não tem cura é a parte neurológica. Os neurónios dos pacientes vão morrendo sem qualquer escolha, até deixá-los acamados e sem qualquer controle sobre seu próprio corpo.

Uma investigação iniciada há quatro anos pelo Instituto de Neurociências (IN) da Universidade Miguel Hernández (UMH) em Elche (Espanha) poderia mudar completamente as coisas. «Não podia curar os doentes que já estão parados, mas podemos tentar que não parem, os que ainda está em movimento», explica o vice-presidente do IN e diretor de pesquisa sobre a Ataxia, Salvador Martinez.

O antídoto, de acordo com experiências realizadas em ratos, pode ser encontrado no próprio corpo do paciente. "Nós sabemos que existem células com propriedades benéficas para os neurónios. De que se trata é de usar células da medula espinhal como medicamentos”, diz Martinez. Esta forma de tratamento, chamada terapia celular, está sendo testada em pacientes que sofrem de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença neurodegenerativa de que sofre com o famoso físico Stephen Hawking. O centro de referência, onde estão sendo realizados os ensaios clínicos é mo Hospital Virgen de Arrixaca em Murcia (Espanha) e todas as pesquisas básicas antes das experiências em humanos foram realizadas no Instituto de Neurociência de Alicante (Espanha).

Como resultado do conhecimento adquirido nesta linha de investigação, a equipe de Salvador Martinez mudou-se para modelos experimentais da Ataxia de Friedreich com um prognóstico tão bom na ELA. No caso da Ataxia, a doença é caracterizada pela morte dos neurónios do gânglio dorsal da coluna vertebral. O tratamento sugerido consiste num transplante de células da própria medula do paciente para a área da coluna vertebral. Os resultados obtidos em ratos são, no mínimo, promissores. «Não só funciona, como sabemos perfeitamente porque o faz: as células preenchem os gânglios dorsais e sua presença impede que os neurónios possam morrer», explica.

A boa resposta dos ensaios laboratoriais chamou a atenção da prestigiada Fundação americana FARA (Friedreich Ataxia Research Alliance – Aliança de Investigação para a Ataxia de Friedreich). Esta organização concentra seus esforços em apoiar financeiramente a investigação neste tipo de patologias, internacionalmente. Na verdade, atualmente é destinar fundos para três equipas de pesquisa no mundo: o Instituto de Neurociências de Alicante, um laboratório australiano e outro baseado em Londres. Todos eles trabalham desde o ano passado, 2012, em coordenação na mesma linha de experiências através da troca contínua de informações, materiais e pessoal.

Experiências em seres humanos

O IN está atualmente no processo de elaboração do ensaio clínico que é obrigatório para a Agência Espanhola de Medicamentos - dependente do Ministério da Saúde - pode estudar e autorizar a aplicação em seres humanos desta terapia experimental. Novamente, o Hospital Virgen de Arrixaca em Murcia seria o lugar onde o ensaio clínico realizado. Salvador Martinez está confiante de que ele pode dar este passo em um período não superior a um ano.

"Nalgum momento temos que saltar de ratos para seres humanos. Neste sentido, aqueles que têm formação médica têm uma maior capacidade para assumir determinados riscos. O médico sente a pressão dos pacientes e está empenhado em tentar curar. Não assumimos mais riscos do que o necessário, mas deve ser feito," reflete o vice-presidente do IN e Professor de Anatomia da UMH.

Três fases

As experiências em seres humanos, explica Salvador Martinez, consistem em três fases. A primeira é exclusivamente para verificar que o tratamento não causar danos ao paciente. As doses aplicadas são muito pequenas e só depois de verificada a sua segurança, multiplicam-se, a fim de explorar se o paciente tem qualquer melhoria. Nesta segunda fase é o ensaio clínico com pacientes com Esclerose Lateral Amiotrófica que começou a ser pioneira no Hospital Virgen de Arrixaca, em Múrcia. Quando verificar-se que o tratamento é seguro e benéfico, é alcançada a terceira e última fase, que consiste em generalizar o seu aplicativo além do complexo do hospital, onde foi realizado o ensaio clínico. A partir desse momento, a experiência deixa de o ser e passa a ser uma terapia.

«Quando os pacientes de Ataxia me perguntam se podem ter esperança, eu respondi que eu tenho. Sem ela, eu não poderia trabalhar. Tento não dar falsas esperanças, mas quando vemos as coisas através de todos os filtros, devemos crer," conclui.


Fonte:
http://www.laverdad.es/alicante/v/20130701/cultura/celulas-rescate-20130701.html

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