29 de abril de 2012

Engasgo é a maior causa de morte entre os portadores da Síndrome de Machado-Joseph

Na última semana, o pai do ator Guilherme Karan, afastado do trabalho desde 2005, revelou que o filho está debilitado, inclusive vivendo em uma cadeira de rodas, em decorrência de uma doença genética neurológica dominante grave, a Síndrome de Machado-Joseph, um tipo específico de ataxia (relacionada à falta de coordenação motora), que faz com que o indivíduo perca a capacidade de se movimentar progressivamente.
Existem mais de 30 tipos de ataxias dominantes e, no Brasil, ainda que rara, a enfermidade que atingiu o ator é a de maior incidência, o que não significa que todas as ataxias sejam denominadas de Machado-Joseph, segundo a geneticista e Professora Titular do Departamento de Genética Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Dra. Iscia Lopes Cendes. “Dentre as dominantes, essa é apenas mais uma delas e é uma forma específica que apresenta mutação no gene específico, conhecida também como o tipo 3”, diz.
A primeira impressão que se tem de uma vítima da patologia é a embriaguez, uma vez que os principais sintomas são semelhantes aos do efeito do álcool em excesso no organismo. Além da falta de equilíbrio corporal, já que braços e pernas não respondem aos comandos do cérebro, há a fala de difícil entendimento, no entanto, a pior de todas as complicações é a dificuldade ao engolir alimentos que, consequentemente, induz ao engasgo, levando o paciente a desenvolver a pneumonia aspirativa, já que o alimento é enviado diretamente ao pulmão em vez de ir para o esôfago, o que provoca a causa mais comum de morte entre as vítimas.
Rara, a doença tem uma incidência de um caso para cada 100 mil pessoas no País, segundo a Dra. Iscia Lopes Cendes, e seu desenvolvimento tem início por volta dos 35 anos. No entanto, a geneticista ressalta sobre a individualidade da Síndrome. “Existem casos em que os sintomas manifestam-se ainda na infância; outros se iniciam tardiamente, já na transição para a terceira idade. As características da Machado-Joseph são individuais e dependem também da gravidade e situação de cada um”, revela.
Diagnóstico e Tratamento
É possível verificar a presença da doença antes do nascimento do bebê, pois como se trata de uma patologia genética, se o pai ou a mãe são portadores da Machado-Joseph, a criança nasce com 50% de chance de desenvolvê-la. Entre as famílias com mais de um integrante com a enfermidade, como também é o caso dos familiares de Guilherme Karan (a mãe e o irmão do ator, já falecidos) deve fazer um acompanhamento ainda mais intenso para abordar e tratar o indivíduo de maneira mais precoce.
O diagnóstico pode ser feito clinicamente, porém, o recomendado pelos especialistas é o exame de mutação por meio do teste genético. Já o tratamento, quando detectada a doença previamente, consiste em um acompanhamento ao longo da vida com fisioterapia e fonoaudiologia. Segundo a geneticista, o tratamento não age contra a enfermidade em si, pois não há cura, e sim na minimização de seus sintomas. “Se o paciente demonstra um excesso de rigidez muscular, dificuldades com o sono, depressão, ansiedade e problemas neurológicos, os profissionais de cada área e a presença constante de um neurologista auxiliam no controle da Machado-Joseph”, salienta.
Segundo as informações da família, o ator Guilherme Karan não tem lidado bem com a doença, pois vive isolado em sua casa no Rio de Janeiro há meses e não gosta de receber visitas, com exceção do fisioterapeuta e de dois enfermeiros que o ajudam no tratamento. De acordo com a Dra. Iscia Cendes Lopes, a maneira com a qual o paciente lida com a doença faz toda a diferença. “Muitas vezes, o sujeito fica depressivo e incapaz justamente pela maneira negativa com a qual encara a doença e não pelas limitações propriamente ditas”, ressalta. Para ela, o essencial é não se deixar abater e enfrentar a enfermidade com o apoio de amigos e familiares.
Não há como prever em que momento da vida o desenvolvimento da doença acontecerá, no entanto, com o apoio de uma equipe médica e dos familiares, o paciente pode reduzir os efeitos da Síndrome. De todo modo, o é importante é continuar com atividades habituais como trabalhar, estudar e se relacionar socialmente com outras pessoas.

22 de abril de 2012

Ataxia espástica, tipo Charlevoix-Saguenay


Sumário
A ataxia autossómica recessiva espástica de Charlevoix-Saguenay (ARSACS) é uma doença neurodegenerativa caraterizada pelo aparecimento precoce de ataxia cerebelar com espasticidade, um síndroma piramidal e neuropatia periférica. Foi inicialmente descrita na região de Charlevoix-Saguenay, no Québec (Canadá), onde a incidência de ARSACS por nascimento era estimada de 1 em 1,932. A incidência e prevalência, a nível mundial, permanece desconhecida, mas a ARSACS é muito rara noutros países, com casos descritos na Turquia, Japão, Holanda, Itália, Bélgica, Franca e Espanha. A idade para o aparecimento em pacientes que não sejam oriundos do Québec é variável (desde o final da infância, juvenil e início da vida adulta), mas em pacientes oriundos do Québec, o aparecimento ocorre entre os 12 e 18 meses de idade, com distúrbios na postura e dificuldades no andar. Outros sinais precoces de ataxia cerebelar incluem disartria e nistagmo. A espasticidade é progressiva e eventualmente vai dominar o quadro clínico. O síndroma piramidal é caracterizado através de reflexos bruscos do tendão patelar e do sinal de Babinski. O aparecimento da neuropatia periférica geralmente ocorre mais tarde e leva à ausência de reflexos do tendão de Aquiles, amiotrofia distal e distúrbios sensoriais profundos (sensações vibratórias debilitadas). A hipermielinização da retina (sem perda de visão) é uma característica constante da ARSACS em pacientes do Québec, mas pode estar ausente em pacientes de outros países. A falta de espasticidade nos membros inferiores tem sido reportada em algumas famílias japonesas e o deficit intelectual pode ser uma característica em alguns pacientes não oriundos do Québec. Outras manifestações podem incluir prolapso da válvula mitral, pes cavus e disfunção da bexiga. A ARSACS é causada por mutações autossómicas recessivas no gene SACS (13q11), que codifica uma grande proteína de funções desconhecidas, denominada de sacsin. O diagnóstico clínico depende dos resultados dos estudos de imagens neurológicas (Ressonâncias Magnéticas e TAC’s revelando atrofia da vermis cerebelar superior e espinal medula cervical) e informação neurofisiológica (sinais de neuropatia, tanto axonal como desmielinizante, com estudos de conduções nervosas revelando perda de condução nervosa sensorial e velocidades reduzidas na condução motora). O exame da retina também pode ser útil para o diagnóstico. O diagnóstico pode ser confirmado através da deteção de mutações SACS. Diagnósticos diferenciais incluem outras ataxias autossómicas recessivas, tais como a ataxia de Friedreich e ataxia com deficiência da vitamina E (AVED), e formas hereditárias de paraplegia espástica, em particular a paraplegia espástica 20 (SPG20 – Síndroma de Troyer). O diagnóstico pré-natal é possível quando as mutações causadoras da doença foram identificadas e as famílias afetadas têm acesso a aconselhamento genético. O tratamento é sintomático pretendendo controlar a espasticidade e deve incluir fisioterapia, farmacoterapia e, se necessário, o uso de ortoses para o tornozelo e pé. A maioria dos pacientes está confinada a uma cedeira de rodas, na 5.ª década de vida. Geralmente a morte ocorre na sexta década, mas tem sido reportada a sobrevivência até à sétima década.

20 de abril de 2012

Doenças raras


Prémio Rola-Braz é uma bolsa de investigação numa garrafa de vinho
Um Brinde pela Ciência é o último ponto do programa científico que sexta-feira vai discutir a regulação e qualidade dos testes genéticos em Portugal. A discussão, no Porto, será centrada nos três anos de espera pela regulamentação da lei sobre informação genética pessoal e informação de saúde, mas a sessão vai encerrar com um invulgar exemplo de mecenato científico. Ana Rola-Braz decidiu contribuir para a criação de uma bolsa de investigação que permita desenvolver novas formas de diagnóstico de doenças raras, fazendo reverter um euro da venda de cada garrafa de vinho que produziu na região do Douro

É "uma homenagem a uma pessoa de família com a doença de Machado-Joseph", explica a enóloga, que trabalha nas Caves de Santa Marta e é proprietária da marca de vinho Quinta de Remostias, na região do Douro. Ana Rola-Braz quis retribuir por um serviço prestado pelo Centro de Genética Médica Preditiva e Preventiva (CGPP), no Porto, e decidiu oferecer o que faz: vinho.

"Uma ideia fantástica para uma forma de mecenato que é muito comum noutros países, mas que em Portugal é incipiente", nota Cláudio Sunkel, director do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), onde está o CGPP, acrescentando que "é a primeira vez" que isto acontece no instituto.

A enóloga poderia ter-se limitado a doar uma verba ao CGPP. Mas, após um encontro com os responsáveis do centro e do IBMC, decidiu que seria mais interessante contribuir para um avanço científico nesta área. Assim, foi já seleccionado num concurso um bolseiro que, durante o próximo ano (a bolsa poderá ser alargada), vai tentar encontrar novas formas de diagnóstico da doença de Machado-Joseph (a doença rara de maior prevalência em Portugal) e outras ataxias hereditárias como esta (doenças crónicas que afectam o cerebelo e acabam por deixar as pessoas sem se poderem mexer nem falar).

Sobre o vinho Quinta das Remostias, que será lançado e provado no final do encontro da Orphanet Portugal, Ana Rola-Braz esclarece que se trata de um tinto, da colheita de 2007, feito com as castas Touriga Nacional e Tinta Roriz, com grau alcoólico de 14% e cujo preço deverá rondar os cinco euros. A enóloga tem um stock de seis mil garrafas (estão à venda à online ou nas lojas de especialidade) para o Prémio Rola-Braz.

Os organizadores do primeiro encontro sobre doenças raras e medicamentos "órfãos" da Orphanet - uma rede que apoia o diagnóstico e tratamento destes doentes, para os quais a indústria farmacêutica tem pouco interesse em desenvolver produtos, e que é liderada por um consórcio de 40 países - esperam que o brinde reservado para o final do dia sirva para celebrar. A Orphanet Portugal espera obter nesta sexta-feira o compromisso do Governo (o secretário de Estado da Saúde, Leal da Costa, deverá estar na sessão), para avançar com a regulamentação da lei publicada em Janeiro de 2005. É que a proposta de decreto regulamentar está pronta desde o início de 2009.

"E até agora nada", constata Jorge Sequeiros, cientista do CGPP e que presidiu à comissão que elaborou esta regulamentação. Na mesma altura apresentou-se uma proposta de portaria sobre o licenciamento dos laboratórios de genética médica. Também, nesse caso, nada até agora.

Apesar de a lei publicada em 2005 estar em vigor, a regulamentação deverá clarificar alguns pontos, como as condições de oferta de testes genéticos, a regulação da sua qualidade, o estabelecimento de biobancos ou a protecção de informação sensível. Estima-se que existam 5 a 8 mil doenças raras, afectando no seu conjunto até 6% da população, o que, extrapolando, significa que haverá até 600 mil pessoas com estas patologias em Portugal.
FONTE: http://www.publico.pt/Ci%C3%AAncias/premio-rolabraz-e-uma-bolsa-de-investigacao-numa-garrafa-de-vinho-1542576

Doença de Machado-Joseph é hereditária e extremamente rara no Brasil

Doenças degenerativas
Saiba mais sobre a doença do ator Guilherme Karan







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14 de abril de 2012

Investigação descobre mutação-chave na ataxia recessiva

Foi descoberta uma mutação num gene mitocondrial que causa doenças neurodegenerativas em moscas da fruta e humanos
Por Victor Lam
A descoberta de uma mutação que causa doenças neurodegenerativas em moscas da fruta e um conjunto de fatores conhecido como ataxia recessiva em humanos, foi recentemente publicada pelos investigadores no Instituto Neurológico de Montreal (Québec, Canadá), em colaboração com o Colégio de Medicina Baylor (Texas, EUA). Um exemplar normal do gene codifica uma parte vital da mitocôndria celular.
Isabelle Thiffault, que atualmente trabalha a tempo inteiro num projeto de investigação de células estaminais no Hospital Neurológico de Montreal, sentou-se com o Tribune para discutir o trabalho.
Thiffault começou a trabalhar no projeto em 2004, numa pequena província entre Trois-Rivères e Québec City. Sabia-se que havia um defeito genético na população humana dessa região, e que esse mesmo defeito era uma tendência comum no Québec.
A sua equipa iniciou diferentes tipos de análises, numa amostra de 17 famílias.
“Analisámos um dos cromossomas que tinha mais de 200 genes e começámos a procurar o gene que era mais provável estar associado a doenças neurológicas,” disse Thiffault. “Começámos a sequenciar esses genes, mas não descobrimos nada [no princípio].”
Após mais análises em 2006, como Thiffault e a sua equipa descobriram e sequenciaram seis genes que expressavam a mutação, veio uma grande surpresa dos investigadores do Colégio de Medicina Baylor.
“Recebemos um telefonema [deles] e disseram-nos que fizeram o mesmo tipo de análise que fizemos, mas na Drosophila,” disse Thiffault.
As mutações descobertas nas moscas da fruta, estavam codificadas para sintetase metionil-tRNA mitocondrial (Aats-met). Esta mutação na         mosca da fruta leva a uma degeneração progressiva dos fotorrecetores nos olhos, tempo de vida encurtado e proliferação celular reduzida.
Os investigadores do Colégio de Medicina Baylor consultaram a literatura e descobriram que o fenótipo associado a doenças neurodegenerativas em moscas da fruta, estava ligado àquela região do genoma humano onde a versão humana do gene Aats-met, MARS2, estava localizado.
“Foi mesmo no tempo exato, porque estávamos a sequenciar o mesmo gene, ao mesmo tempo,” disse Thiffault.
De acordo com o artigo publicado, o MARS2 é um gene humano homólogo, responsável por um tipo de doença denominado ataxia, que causa a perda total de controlo dos movimentos corporais. Este gene pode ser encontrado em algumas famílias franco-canadianas.
Atualmente, Thiffault está a trabalhar na produção de culturas neurónicas a partir da pele de pacientes, de maneira a encontrar uma explicação para a razão destes genes, que normalmente estão expressos nos tecidos, terem um impacto em certos tipos de neurónios.
“Nós não percebemos porque é esse gene tão importante na mitocôndria e apenas tem impacto no cérebro, especialmente quando é requerida muita energia,” disse Thiffault. “Então ao produzirmos estas culturas, poderemos testá-las diretamente, de maneira a observarmos quais têm um impacto positivo no fenótipo.”

11 de abril de 2012

A ataxia “Costa da Morte” é a ataxia espinocerebelar 36: caracterização genética e clínica


Maria García-Murias, Beatriz Quintáns, Manuel Arias, Ana I. Seixas, Pilar Cacheiro, Rosa Tarrio, Julio Pardo, Maria J. Millán, Susana Arias-Rivas, Patricia Blanco-Arias, Dolores Dapena, Rámon Moreira, Francisco Rodriguez-Trelles, Jorge Sequeiros, Ángel Carracedo, Isabel Silveira e María J. Sobrido
Sumário

A ataxia espinocerebelar 36 foi recentemente descrita em famílias japonesas como um novo tipo de ataxia espinocerebelar com sinais neurais motores. É causada por uma repetição da expansão GGCCTG no intrónio 1 de NOP56. Entrevistas familiares e documentos de investigação permitiram-nos reconstruir duas linhas extensivas e multigeracionais a partir da mesma aldeia (Costa da Morte, Galiza, Espanha), no século XVII. Encontrámos a presença da mutação da ataxia espinocerebelar 36 co separadas com doenças nestas famílias, a quem já previamente tinha sido identificado um sistema de ligação ~0.8 Mb ao cromossoma 20 p. Uma avaliação adicional revelou a expansão NOP56 em mais oito ataxias semelhantes, na Galiza. Enquanto os alelos normais contêm 5-14 repetições hexanucleotoides, os alelos expandidos variam de ~650 a 2500 repetições, dentro dum haplotipo partilhado. Era frequente um tamanho maior da repetição da expansão, especialmente na transmissão paternal, enquanto exemplos de contrações de alelos eram observadas em transmissões maternais. Encontrámos um total de 63 indivíduos com a mutação, 44 dos quais foram confirmados como clinicamente afetados; mais de 400 pessoas estão em risco. Descrevemos aqui o quadro clínico detalhado, consistindo de um aparecimento tardio, lento síndroma cerebelar progressivo com movimentos oculares anormais variáveis e perda de audição neurossensorial. Havia sinais de desnervação da língua, assim como sinais piramidais leves, mas fora disso, nenhuns sinais de esclerose lateral amiotrófica clássica. As descobertas através das imagens das ressonâncias magnéticas eram consistentes com o percurso clínico, demonstrando atrofia da vermis cerebelar em estádios iniciais, evoluindo mais tarde para um padrão de atrofia olivopontocerebelar. Estimamos que a origem da mutação fundadora ocorreu na Galiza, há ~1275 anos. De 160 famílias galegas com ataxia espinocerebelar, 10 (6,3%) tinham ataxia espinocerebelar 36, enquanto 15 (9,4%) tinham outros tipos de ataxias espinocerebelares dominantes. A ataxia espinocerebelar 36 é assim, até ao momento, a ataxia espinocerebelar dominante mais frequente na região, o que pode ter implicações nos países americanos associados com a emigração espanhola tradicional.