10 de maio de 2015

Nova avaliação da ataxia de Friedreich explora as principais características e as atuais estratégias terapêuticas

A equipa liderada por investigadores da Universidade Federal de São Paulo (Brasil) e do Hospital Israelita Albert Einstein (Brasil), publicado recentemente na revista Neurogenetics uma avaliação baseada nas principais características clínicas, os mecanismos fisiopatológicos, e as estratégias terapêuticas disponíveis para a ataxia de Friedreich. O estudo intitula-se "Marcos na ataxia de Friedreich: mais de um século e ainda se está a aprender."

A ataxia de Friedreich é uma doença neurodegenerativa hereditária rara, caracterizada pela lesão progressiva do sistema nervoso com degeneração da medula espinal e nervos periféricos que leva a fraqueza muscular, perda sensorial, défice de equilíbrio e falta de coordenação dos movimentos musculares voluntários. A doença é causada por uma mutação num gene chamado frataxina (FXN), mais especificamente por umas repetições trinucleotídicass guanina-adenina-adenina (GAA) espandidas no primeiro intrão (unidade de codificação) do gene FXN, o que leva a uma redução na ARN mensageiro e à subsequente baixa da proteína frataxina. Estima-se que 1 em 50 a 100 indivíduos na Europa, Norte da África, Oriente Médio e Índia sejam portadores assintomáticos. O tempo médio desde o início dos sintomas até à dependência de cadeira de rodas foi, estimado em 15,5 anos.

Em termos de características clínicas neurológicas da ataxia de Friedreich, os investigadores descobriram que as principais características relatadas são a deficiência da marcha associada a uma ataxia progressiva (falta de coordenação dos movimentos musculares voluntários), fraqueza muscular, perda sensorial, e o tónus reduzido. A maioria dos pacientes também apresenta arreflexia (ausência de reflexos neurológicos, como a reação do empurrão do joelho) e disartria (distúrbio motor da fala); anormalidades no movimento dos olhos e disfagia (dificuldade de deglutição) também foram relatadas. A demência grave não ocorre na ataxia de Friedreich.

No que diz respeito as características clínicas não-neurológicas, a ataxia de Friedreich pode afetar o coração, levando a cardiomiopatia (onde a função do músculo cardíaco é comprometida), causar anomalias esqueléticas (como um alto arco do pé conhecido como pé cavus e escoliose, uma curvatura lateral da coluna) e induzir diabetes mellitus (relatado em 10 a 30% dos pacientes). As complicações cardíacas são a causa mais comum de morte em pacientes com ataxia de Friedreich.

A equipa de investigação também encontrou relatos de fenótipos atípicos, nomeadamente casos de ataxia de Friedreich de início tardio diagnosticado depois dos 25 anos de idade e, mesmo depois dos 40, 50 e 60 anos. Os sintomas de ataxia de início tardio são geralmente leves. Por outro lado, os fenótipos muito precoces de ataxia geralmente ocorrem em menos de 20% dos casos, e é caracterizada por uma progressão neurológica mais rápida.

Em pacientes com ataxia de Friedreich, a homeostase do ferro também é perturbada. A montagem dos aglomerados (cofatores essenciais para o bom funcionamento de várias proteínas) de ferro-enxofre (Fe-S) parece ser regulada pela proteína FXN. Na ausência da proteína, existe um défice de aglomerados de Fe-S comprometendo a atividade de várias proteínas que conduzem à acumulação de ferro nos tecidos, como o coração e o sistema nervoso e a uma falha do metabolismo energético.

Quanto ao diagnóstico, os investigadores descobriram que a análise de ADN para os tripletes GAA é a técnica de diagnóstico fundamental para a ataxia de Friedreich. Os testes metabólicos à glicose, a ressonância magnética ao cérebro (MRI), o eletrocardiograma e o ecocardiograma também podem ser realizados para auxiliar no diagnóstico e avaliar o estado da doença.

Não há nenhum tratamento específico que possa interromper a progressão da doença em pacientes com ataxia de Friedreich, embora um número de medicamentos estejam atualmente a ser testados. As abordagens terapêuticas disponíveis para esta doença são baseadas em três estratégias-chave. A primeira é para melhorar o funcionamento mitocondrial, empregando por exemplo, antioxidantes, tais como a vitamina E, a coenzima Q1, a idebenona (um análogo da coenzima Q), o EPI-743 (uma variante da idebenona), e o deferiprone (um quelante do ferro). A segunda estratégia terapêutica é aumentar a expressão da FXN usando a hormona eritropoietina ou interferão gama, por exemplo. A terceira estratégia terapêutica é a terapia genética, por exemplo, a entrega de um vetor que codifica a proteína humana FXN. A equipa de investigação sugere que mais estudos são, no entanto, necessários para avaliar a eficácia e a viabilidade de cada uma destas estratégias terapêuticas.




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