21 de outubro de 2015

Em Janeiro, pensão de invalidez deixa de depender do tipo de doença

É a incapacidade e não a patologia que vai contar para a atribuição do apoio. Nas peritagens médicas, passa a ser usada a Tabela Nacional de Funcionalidades para avaliar invalidez dos requerentes. No ano passado quase 260 mil receberam pensão.



As alterações ao regime especial de proteção na invalidez tinham sido anunciadas genericamente, em Junho, no Parlamento, pelo ministro Pedro Mota Soares. O diploma que as concretiza foi publicado nesta terça-feira, em Diário da República. Até agora tinha acesso a pensão de invalidez quem sofresse de incapacidade permanente para o trabalho causada por alguma das doenças tipificadas na lei — como a esclerose múltipla. As novas regras acabam com essa lista de patologias. A ideia é esta: deve ter apoio quem comprovadamente fica impossibilitado de trabalhar. Independentemente da doença de que sofre.
O regime especial de proteção na invalidez é um apoio em dinheiro, pago mensalmente, para proteger pessoas com doenças que se manifestam precocemente e de forma rápida e evolutiva para situações de grande incapacidade. Até aqui estavam definidas as seguintes, que davam direito a apoio: paramiloidose familiar; doença de Machado/Joseph; sida; esclerose múltipla; esclerose lateral amiotrófica; doença de foro oncológico; Parkinson e Alzheimer.
Em 2014, 258.732 pessoas receberam pensão de invalidez, segundo as estatísticas da Segurança Social. O montante da mesma depende da carreira contributiva e das remunerações registadas — a valor mínimo, para uma carreira inferior a 15 anos é de 261,95 euros.
Contudo, em 2013, foi criada uma comissão especializada que, já em 2014, acabaria por entregar um relatório onde concluía “não ser adequado, do ponto de vista clínico, a existência de uma lista de doenças abrangidas pelo regime especial de protecção na invalidez, uma vez que, atendendo ao elevado número de doenças potencialmente invalidantes, o risco de a mencionada lista não abranger a totalidade dessas doenças criaria situações de tratamento diferenciado e colocaria em causa o princípio da equidade social”.
Propôs assim a dita comissão que o paradigma fosse alterado, como se recorda no preâmbulo do diploma publicado nesta terça-feira. O acesso à proteção especial na invalidez deveria passar a depender “da verificação de condições objetivas especiais de incapacidade permanente para o trabalho, independentemente da doença causadora da situação de incapacidade”.
O Governo considerou adequadas as propostas. E adotou agora “um novo conceito de incapacidade permanente para o trabalho determinante de invalidez especial”.
Não há lista de doenças. São as consequências das mesmas que passam a contar. E assim, o processo de atribuição das prestações deverá incluir a informação clínica emitida por um médico especializado que “comprove a doença que origina a situação de incapacidade para o trabalho ou de dependência”, para além “da deliberação dos serviços de verificação de incapacidades competentes nos respetivos regimes de proteção social”. Nas peritagens médicas será usada, a título experimental, e a partir de 1 de Janeiro do próximo ano, a Tabela Nacional de Funcionalidades (uma grelha que ajuda os profissionais de saúde a avaliar a mobilidade e as competências dos doentes, como a capacidade de realizar rotinas diárias, levantar e transportar objectos ou ter um emprego).
Em Junho, no Parlamento, Mota Soares disse que pelas simulações já feitas, o novo modelo vai fazer aumentar o número de beneficiários considerados em situação de invalidez permanente. De resto, explicou, “não há ano que passe que não cheguem ao ministério situações de pessoas com incapacidades comprovadas, que por não terem a sua doença prevista [na lista] não podem ser apoiadas pelo Estado na sua incapacidade”.





20 de outubro de 2015

A diversidade sobe à passarela com orgulho

A Semana da Moda de Navarra 2015 apresentou um desfile pioneiro com modelos com deficiência e roupas adaptadas à diversidade funcional

Ao centro, o designer Miguel Olarte, rodeado por María Blasco (em baixo, à direita) e Irene Aspurz (em baixo,
 à esquerda), os membros da Ibili que desfilaram como modelos com roupas adaptadas; e Dani Garcia (em cima,
 à direita) e Javier Aragón (em cima, à esquerda), colaboradores no evento.

"Este desfile é um passo importante para uma sociedade inclusiva."

O mundo da moda está a mudar, libertando-se lentamente dos rigorosos estereótipos que o dominam. A atriz Jamie Brewer, o primeiro modelo adulto com síndrome de Down, foi contratada para dar um rosto a este movimento que se está a tornar cada vez mais forte e que já chegou a Pamplona (Espanha).

Este ano, a empresa responsável por abrir os desfiles da Semana de Moda de Navarra é a Tdotex, que fabrica "roupas fáceis de usar para as pessoas do século XXI", em especial para as pessoas com deficiência. Mas não estarão sozinhos, já que contam com a participação de alguns modelos muito especiais, sete sócios da Associação Ibili e dois da Fundácion Induráin. A iniciativa é pioneira no país, pois "nunca foi apresentada uma coleção de roupa adaptada numa Semana da Moda".

A ideia partiu da própria organização da Semana da Moda de Navarra e contou, desde o primeiro momento, com o apoio da associação Ibili. "Para nós é uma grande oportunidade, aparecer numa montra em que a diversidade funcional nunca teve espaço. Queremos mostrar que a diversidade funcional não é incompatível com a moda", diz Dani Garcia, coordenador Ibili (que trabalham na área da deficiência física). E, como diz Garcia, "as pessoas com deficiência devem ser capazes de se verem refletidas nas roupas apresentadas nas passarelas, devem ser capazes de dizer: 'Eu gosto dessa roupa, e não é só gostar, acho que me pode ficar bem'. Têm que se identificar com a roupa, acreditar que também a podem comprar."

Desta forma, adaptando a roupa às necessidades de cada utilizador, pretende-se fornecer autonomia e autoestima às pessoas com deficiência e evitar que algo tão rotineiro como o vestir possa se transformar num "trauma".

Além disso, essas adaptações não só representam uma melhoria para o utilizador, mas também o são para o seu assistente. "Com este tipo de roupa é mais fácil ajudá-los a vestirem-se. E ainda por cima sem dor nas costas", diz com um sorriso Ernest Campos, voluntário da Ibili.

Para Miguel Olarte, estilista da Tdotex, esta experiência tem sido um desafio. "Este trabalho representa um duplo benefício: por um lado faço o que gosto, que é o desenho, por outro, faço algo para ajudar os outros. Sem o ter apresentado, já algumas pessoas me disseram que querem comprar", disse Olarte.

A criação desta coleção tem sido um exercício contínuo de criatividade para Miguel, porque "tem que se adaptar cada peça de roupa a cada pessoa e às suas necessidades. A ideia inicial não tem nada a ver com o resultado, houve momentos em que fazíamos algo e ao experimentarmos, víamos que não funcionava."

Os protagonistas "Faz-me muito feliz em participar neste evento, para mim é uma forma de mostrar que a diversidade funcional não é incompatível com a elegância e as tendências", diz María Jesús Marcos Barbarin, um dos modelos do desfile. Além disso, María Jesús não pode evitar um sorriso de alegria perante o pensamento de ir para participar num desfile de moda, "algo que nunca tinha imaginado."

Ao fazer compras, María Jesús e as pessoas com deficiência enfrentam uma série de problemas. "Primeiro, a roupa adaptada está sempre cheia de caixas. Então tem que pedir para vagarem ou ir a outro, que são pequenos e nem tem um lugar para se sentar", disse María Jesús. Além disso, "preciso de ajuda para ir às compras, o que restringe a liberdade". Por outro lado, encontrar roupas para o dia o dia é relativamente fácil no caso de María Jesús. "Eu não me sinto confortável com vestidos. Então eu prefiro usar calças, têm mais opções e sabes que, quer te custe mais ou menos, vais encontrar algo. Mas se procuras algo mais elegante. é mais difícil de encontrar ", diz ela. No entanto, ao participar no desfile cada um tem sua própria motivação. Para Mikel Vidaurre a moda não é algo a que preste muita atenção, mas, no entanto, participar nesta iniciativa é muito importante para ele. "Se alguém começa a nos apoiar ... como é que dizemos não? Isto não é o que mais me entusiasma, mas colaboro", explica Mikel, que ficou encantado com as calças que Miguel tinha desenhado e uma camisa com botões substituídos por ímãs. "Para alguém com mobilidade reduzida nas mãos, como eu, isso é ótimo. Aproximamos as extremidades e, zás!, já está abotoada", diz Mikel enquanto faz o gesto. Como Mikel, Alberto del Pozo não é apaixonado por moda. "Esta reputação tem me pegou um pouco tarde", brinca Alberto. No entanto, apesar de tudo, ele admite que não falta muito para convencê-lo.

No entanto, Carmen Aguirre está mais interessada em moda. "Este é um passo importante para a inclusão social. Somos todos cidadãos, mas alguns não têm acesso a essas áreas. Portanto, é importante que um estilista possa combinar estética com funcionalidade", disse Carmen, que quis salientar que esta iniciativa pode ser alargada a outros domínios como a arquitetura.

“O ideal seria que quando um estilista desenha uma peça de roupa, inclua algumas modificações para se poder adaptar a todo o tipo de pessoas, sejam tamanhos maiores ou diversidade funcional", diz Carmen.

No final, parece que esta coleção tem sido tão bem sucedida que já há quem pergunte para quando o fato e os calções de banho.


Navarra – província espanhola
Ibili – Associação de Deficientes Físicos de Navarra
Fundácion (Miguel) Induráin – Fundação que apoia e promove o desporto de alto rendimento


(artigo traduzido)




18 de outubro de 2015

Tenente Dan: o deficiente que quer levar a sua comédia à Teletón

"Pergunte a um deficiente". É o título do segundo trabalho que o Tenente Dan, o primeiro youtuber deficiente do mundo, colocou no seu canal no Youtube e que provocou muitas gargalhadas.

Mas por trás dessa personagem, que responde no seu vídeo "a perguntas que sempre quis fazer um deficiente", é Mauricio Riffo, um jovem de 23 anos que mostra o seu mundo, a partir da sua perspetiva particular.

A partir da sua cadeira de rodas, à qual está confinado há alguns anos, quando se começou a manifestar a ataxia de Friedreich, uma doença degenerativa que o aflige e que no primeiro minuto o deprimiu, mas que foi o levou a atrever-se a estrear como comediante/youtuber.

"Eu estou doente e minha doença é progressiva, então, mais tarde ou mais cedo, iria chegar altura de estar confinado a uma cadeira de rodas, como já estou."

"Naquela época começou a estar na moda a 'stand up comedy'. Ao estar numa cadeira de rodas estive deprimido algum tempo, porque foi um choque emocional muito forte", lembra ele.

"Mas a expressão ‘stand up’ significa estar de pé e eu decidi aventurar-me neste género, mas a partir da perspetiva de um deficiente porque é engraçado que uma pessoa numa cadeira de rodas faça algo que diz que é humor de pé", acrescenta.

Assim, há já seis meses, ele está a atuar em vários locais e, embora apenas tenha começado, a pouco a pouco está a integrar o espetáculo de Felipe Avello. "Ele tem a sua agenda de espetáculos e comecei a acompanhá-lo e, depois, a fazer parte do seu espetáculo e isso me ajudou bastante, porque me deu as ferramentas para responder a alguém, improvisar e ter um ritmo de comédia.”

E como se isso não bastasse, ele decidiu tornar-se youtuber. "Tive uma boa receção das pessoas, uma boa onda, para continuar a fazer vídeos, porque, basicamente, eu estou a fazer um trabalho muito agradável, em parte educativo, aproximando a deficiência das pessoas, porque, basicamente, o assunto é tabu hoje em dia. "

Mas o Tenente Dan tem um objetivo maior, chegar ao espetáculo Teletón e apresentar a sua comédia nesse cenário, por isso pede àqueles que vêm o seu vídeo, a subscrever o seu canal e a dar-lhe a oportunidade de realizar o seu sonho e também ganhar dinheiro.

Teletón (Chile) – evento de solidariedade anual. Ocorre desde 1978, normalmente durante a 1.ª semana de dezembro. A maior estação de televisão chilena emite uma transmissão de 27 horas, para angariar fundos para ajudar crianças com dificuldades de desenvolvimento (nomeadamente paralisia cerebral)
Felipe Avello – jornalista e humorista chileno


(artigo traduzido)




Cognição e emoção em cerebelopatias

Os problemas nas áreas da cognição e emoção estão relacionados com a lesão cerebelosa na ataxia?
Sim, podem estar. O cerebelo tem sido, desde há muito, conhecido ser importante para o controle motor, e as pessoas com distúrbios atáxicos sentem dificuldades motoras, inclusive marcha instável (ataxia) com base ampla, incoordenação dos braços e pernas, fala arrastada, e anomalias nos movimentos oculares. Sabemos agora que o cerebelo, como o córtex cerebral, tem algumas partes que são críticas para o movimento, e outras partes que desempenham um papel na cognição e emoção. O cerebelo motor está relacionado com o córtex motor que governa os movimentos; enquanto que as regiões não-motoras do cerebelo estão ligadas a áreas de “associação” cortical cerebelosa importantes para o pensamento, raciocínio, motivação, memória e sentimentos. As lesões no cerebelo não-motor perturbam estas ligações cerebelosas com áreas corticais cerebrais do pensamento, e podem levar a dificuldades em funções intelectuais e a alterações de humor e personalidade. Os distúrbios atáxicos também podem produzir neurodegeneração em partes do córtex cerebral importante para o intelecto, outra razão pela qual os pacientes com ataxia podem ter problemas com estas funções.

Que tipos de problemas psicológicos podem ser causados por lesões ou distúrbios cerebelosos?
A síndrome afetiva cognitiva cerebelosa é o conjunto de problemas que surge quando o cerebelo não-motor é danificado. Inclui deficiências na função executiva, análise visual-espacial e défices selecionados nas competências linguísticas, bem como alterações na personalidade e comportamento. Pode haver dificuldades com a polivalência, o planeamento e a organização. As atividades da vida diária que exijam flexibilidade intelectual e que eram anteriormente realizadas automaticamente, podem exigir esforço consciente e novas estratégias. Pode haver dificuldades em expressar pensamentos lógicos e coerentes, e problemas de memória, particularmente com o trabalho. As alterações de humor incluem depressão, apatia, irritabilidade e tolerância limitada à frustração. A interação psicossocial pode ser prejudicada, particularmente em crianças com lesão cerebelosa. A demência é incomum na doença cerebelosa, mas pode ser um problema naqueles distúrbios atáxicos que afetam vastas áreas da o córtex cerebral. O papel do cerebelo na dislexia, défice de atenção e hiperatividade, distúrbios do espectro autista, esquizofrenia, atraso no desenvolvimento e distúrbio do pânico, está sob investigação ativa.

Porque é que isso é importante para o paciente atáxico?
Os pacientes cerebelosos e as suas famílias geralmente acham útil saber que os problemas cognitivos e psiquiátricos podem ocorrer como um resultado direto da doença. Estes desafios, para além do controle motor, não estão "na sua cabeça", mas no seu cérebro. Estas dificuldades não são culpa do indivíduo afetado, membros da família ou prestadores de cuidados de saúde. É também útil saber que o stress causado pela doença crónica e as alterações sociais resultantes podem resultar em encargos adicionais sobre os pacientes e as suas famílias. Reconhecer a base cerebral destas mudanças mentais e de humor, juntamente com questões sociais e psicológicas difíceis que vêm com a doença, é o primeiro passo essencial que conduz ao tratamento. Os pais de crianças com atraso no desenvolvimento devido a doença cerebelosa podem ter que lidar com muitos desafios psicossociais e intelectuais especiais, mesmo que haja apenas uma ataxia mínima ou nenhuma.

O que pode ser feito em prol do paciente atáxico?
A resposta definitiva é prevenir ou curar a própria doença cerebelosa. Mesmo na ausência de uma cura, ainda é possível melhorar substancialmente a qualidade de vida por meio de tratamento de distúrbios cognitivos e psiquiátricos através de terapias, tais como medicamentos, reabilitação cognitiva, aconselhamento psicológico e intervenções ambientais. Os médicos de cuidados primários e neurologistas devem ser capazes de administrar estes aspetos. Nos casos mais difíceis ou complicados, a consulta com um especialista em ataxia, neurologista comportamental ou psiquiatra com experiência em questões de tratamento cognitivo e de humor, pode ser necessária. O sucesso do tratamento depende de uma profunda avaliação de modo a utilizar a medicação mais adequada e intervenções adaptadas às necessidades de cada indivíduo. As crianças com desafios cognitivos e psicossociais precisam de atenção especial, e podem ficar bem com o tempo e reabilitação intensiva.

Existe alguma investigação em curso?
Sim. Há uma nova e vibrante área de investigação: a neurociência cognitiva do cerebelo. Inclui estudos anatómicos e comportamentais em modelos animais, como bem como estudos de imagem funcional e clínico investigações em pacientes e controles saudáveis.


(artigo traduzido)





15 de outubro de 2015

Função urinária, intestinal e sexual em pacientes com ataxia de Friedreich

Meher Lad, Michael Parkinson, Myriam Rai, Massimo Pandolfo, Sinead Murphy, Anton Emmanuel, Jalesh Panicker, Paola Giunti


Resumo

Background
A ataxia de Friedreich (FRDA) é uma doença autossómica recessiva neurodegenerativa levando a ataxia, fraqueza, neuropatia periférica, diabetes e cardiopatia. Embora os pacientes relatem também sintomas urinários, intestinais e sexuais, estes apenas foram descritos na literatura.

Métodos
Foram vistos 59 pacientes numa clínica de investigação num ano, que foram incluídos no estudo. Os valores do questionário de medição dos sintomas urinários, intestinais e sexuais foram comparados com medições validadas da gravidade da doença.

Resultados
Os resultados de sintomas urinários correlacionavam-se significativamente (p=0,021) com a duração dos sintomas da doença e os resultados de espasticidade (p=0,045). As medições da qualidade de vida de pacientes com sintomas urinários correlacionavam-se com as escalas de avaliação da ataxia (SARA) (p=0,036) e sintomas não-atáxicos (INAS) (p=0,003). Os resultados da doença neurogénica intestinal correlacionavam-se com a severidade dos sintomas atáxicos (SARA) (p=0,024) e atividades da vida diária (AVD) (p=0,001). Os resultados dos sintomas sexuais não se correlacionavam com as medidas estabelecidas da gravidade da doença e duração da doença.

Conclusões
Os sintomas urinários e gastrointestinais menores podem ter um grave impacto nos pacientes com FRDA, embora sejam pouco reconhecidos. Têm impacto na qualidade de vida e correlacionam-se com as medidas estabelecidas da gravidade da doença.


(artigo traduzido)




14 de outubro de 2015

María Dolores Moltó: "A investigação na ataxia de Friedreich (AF) é dirigida para a obtenção de tratamentos eficazes"

A Dra. María Dolores Moltó no seu laboratório do
Departamento de Genética da Universidade de
Valência
María Dolores Ruiz Moltó (Almería, Espanha, 1961) tem um doutoramento em Biologia pela Universidade de Valência (Espanha) e é professora no Departamento de Genética da mesma instituição, onde lidera o grupo de investigação de Genética Molecular Humana e investigadora no CIBER de Saúde Mental (CIBERSAM). Durante a investigação, Moltó tem focado a sua carreira no campo da ataxia de Friedreich e esquizofrenia. Sempre em contato com os pacientes, Moltó sublinha a importância de manter um financiamento seguro e estável para se concentrar na investigação. Ela enfatiza a importância da colaboração e coordenação entre os diferentes grupos que abordam a mesma doença genética.
Aproveitámos a sua participação no Certificado em Princípios de Genética Humana organizado pela Universidade de Valência (Espanha) e ADEIT – Fundación Universidad – Empresa de la Universitat de València (Espanha) e o recente Dia Internacional das Ataxias (25 de setembro) para fazer algumas perguntas sobre a sua carreira e os seus projetos na área da ataxia de Friedreich.

A ataxia de Friedreich é uma doença pouco conhecida. Quais são as suas principais características?
A ataxia de Friedreich é uma doença neurodegenerativa que afeta o sistema nervoso central e periférico. Uma percentagem significativa de pacientes também têm problemas cardíacos, especificamente cardiomiopatia hipertrófica e, em menor número, diabetes mellitus. Esta doença é causada pela deficiência de uma proteína chamada frataxina. Também tem um padrão autossómico recessivo, o que significa que as pessoas afetadas têm duas cópias do gene mutado. A mutação mais prevalente é uma expansão anómala de uma repetição GAA localizada no primeiro intrão do gene.

Já passaram quase 20 anos desde que as causas genéticas da AF, estudo em que participou, foram descobertas. Que progressos foram feitos desde então?

Desde que em 1996 se identificou o gene responsável pela ataxia de Friedreich, um dos aspetos em que se tem trabalhado mais intensamente é conhecer a função deste gene e como as mutações afetam o mesmo. Isto é essencial para entender o porquê das alterações fisiopatológicas nos pacientes e para poder abordar estratégias terapêuticas que sejam verdadeiramente eficazes.
Os modelos desenvolvidos em organismos experimentais têm contribuído significativamente para decifrar a função da frataxina. Os primeiros dados foram fornecidos pela levedura: mutantes de levedura deficientes em frataxina mostraram uma grande acumulação de ferro na mitocôndria. Isto permitiu propor a primeira hipótese: que a frataxina poderia ser um potencial regulador da quantidade de ferro mitocondrial.
A partir de então, até agora, tem-se verificado que a frataxina está envolvida em vários processos celulares e têm sido propostas diferentes funções para esta proteína, todas relacionadas com a biologia das mitocôndrias. No entanto, apesar de todos estes anos de trabalho, o papel da frataxina na célula ainda não é totalmente clara. Em todo o caso, sabemos que sua deficiência provoca várias alterações bioquímicas que afetam a biogénese dos centros de ferro-enxofre, e que necessitam de proteínas, assim como centros de atividade como a aconitase e complexos de proteínas pertencentes à cadeia respiratória. A deficiência de frataxina torna as células são muito sensíveis à ação de agentes oxidantes.
O progresso na compreensão do papel da frataxina tem permitido ter realizado vários ensaios clínicos com fármacos que contrariassem os efeitos da deficiência dessa proteína. O stress oxidativo tem sido um dos objetivos mais importantes de desempenho, e avaliar a eficácia de vários compostos com efeitos antioxidantes, tais como a coenzima Q, idebenona ou vitamina E. No entanto, não existe um consenso suficientemente claro em respeito à eficácia de tais compostos nos pacientes com transtornos neurológicos. Outro alvo tem sido a acumulação de ferro na mitocôndria, onde a ação tomada foi usar quelantes de metais tais como a deferoxamina e a deferiprona. Ambos os compostos foram retirados de ensaios clínicos devido a resultados contraditórios obtidos e os efeitos que têm sobre a enzima aconitase, porque reduzem a sua atividade.
Um outro avanço na ataxia de Friedriech foi determinar a forma como a mutação afeta a expressão do gene que codifica a frataxina. A síntese da frataxina é severamente comprometida nos pacientes, uma vez que as expansões GAA impedem a transcrição do gene, obtendo-se os níveis de proteínas entre 5 e 30% do nível normal. Atualmente acredita-se que a causa principal é o maior compactação da cromatina nas regiões próximas da expansão GAA, causada por esta expansão. Isto implica que o gene não pode expressar-se ao nível que acontece em situações normais. Estes resultados deram lugar ao uso de compostos como inibidores de enzimas de histona-desacetilase que modificam a conformação da cromatina que promovem a expressão do gene e, assim, um aumento dos níveis de frataxina.


Também participou na identificação, na Drosophila, do gene humano equivalente e a criação de um modelo da doença na mosca da fruta. O que tem proporcionado este modelo?
Como eu disse antes, os modelos de laboratório têm sido muito importantes para saber o que faz a frataxina na célula. Sendo uma proteína evolutivamente conservada, também está presente na Drosophila. No nosso laboratório, identificámos o do gene da mosca que codifica a frataxina e vimos que esta proteína, tal como nos humanos, está localizada nas mitocôndrias. A partir daqui, vários grupos diferentes laboratórios têm usado a mosca da fruta para tentar reproduzir a situação que os pacientes têm a nível molecular, isto significa uma diminuição significativa na quantidade de frataxina presente na célula e, assim, observar em diferentes níveis de estudo, o que acontece com as moscas.
Cada modelo desenvolvido na Drosophila tem feito a sua contribuição. Poderíamos ter uma situação muito semelhante à dos pacientes com ataxia de Friedreich, em que as moscas tinham níveis de frataxina em torno de 30% dos níveis normais. Esta redução é coerente com um desenvolvimento embrionário aparentemente normal e as pessoas podem atingir a idade adulta.
O nosso modelo reproduz alguns dos parâmetros clínicos observados em pacientes: redução das capacidades motoras, menor esperança de vida e uma grande sensibilidade ao stress oxidativo. Vimos que, como ocorre em certos tecidos de pacientes e em ratos modelos e levedura, as moscas tinham mais ferro nas mitocôndrias e a atividade da enzima mitocondrial aconitase foi afetada, comprometendo seriamente a respiração mitocondrial em condições de stress oxidativo.

Qual acha que tem sido a contribuição mais importante do seu modelo?
Talvez ter identificado um potencial novo alvo terapêutico na ataxia de Friedreich. Descobrimos que usando dois inibidores da função de um complexo chamado TORC1, as nossas moscas deficitárias em frataxina recuperaram a sua capacidade de se mover até níveis normais e aumentar a sua sobrevivência, embora ligeiramente. O TORC1 é um complexo proteico em que participa a proteína TOR, uma proteína chave que regula a homeostase da célula na sua interação com o ambiente.
Além disso, estes inibidores protegem as moscas do stress oxidativo gerado pelo défice de frataxina e também do causado por fatores externos, ativando diferentes mecanismos moleculares. Estes resultados colocam os holofotes sobre um novo caminho bioquímico para orientar a busca de moléculas com efeito benéfico para os pacientes.

Será que estamos mais perto de um tratamento eficaz?
Se pensarmos que, quando o gene foi identificado não se tinha qualquer ideia do qual poderia ser o seu papel e agora se está a avaliar o efeito terapêutico de um grande número de moléculas, a minha resposta é sim. Mas também é verdade que apesar de anos de investigação ainda não se conseguiu um tratamento que seja realmente eficaz. Não é fácil o tratamento de doenças genéticas, mas é claro que hoje se sabe o que acontece com as células sem frataxina e, portanto, está-se em posição de desenvolver estratégias que sejam realmente úteis para o tratamento desta doença.
Atualmente, existem várias moléculas em fase de ensaio clínico que atuam melhorando a função mitocondrial e reduzindo o stress oxidativo provocado pela falta de frataxina. Também estão a ser analisados compostos que aumentam a síntese da frataxina ou que inibem a sua degradação, de modo que a menor quantidade de frataxina sintetizada em pacientes dure mais tempo. Alguns destes compostos estão em fases pré-clínicas, mas outros atingiram estádios avançados do ensaio clínico.
Além disso, as diferentes estratégias de terapia genética para a substituição da frataxina são muito promissoras. Neste campo de trabalho existem dois grupos espanhóis, o de Javier Díaz-Nido no Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa, em Madrid (Espanha), que trabalham na geração de vetores virais modificados, e o de Ernest Giralt do Instituto de Investigação Biomédica de Barcelona (Espanha), centrou-se na criação de nanopartículas. Ambos os grupos procuram obter sistemas eficientes para a transferência do gene da frataxina.
Além disso, a investigação continua também na descoberta de novos fármacos com possível efeito terapêutico usando plataformas que permitem o ensaio de milhares de compostos químicos. Assim, ambos os modelos animais simples, tais como os gerados na Drosophila podem ser muito úteis nesta investigação.
 
A equipa de investigação de María Dolores Moltó
desenvolveu vários modelos de ataxia de Friedreich
na Drosophila
Recentemente, o seu grupo de investigação participou num projeto internacional no âmbito do Programa-Quadro VII da União Europeia. Como tem sido trabalhar com outros grupos de investigação?
Em colaboração com o grupo de Francesc Palau e Pilar Gonzalez-Cabo do Instituto de Biomedicina de Valência (agora do Hospital Sant Joan de Déu de Barcelona e o Centro de Investigação Príncipe Felipe, em Valência, respetivamente) e do grupo de Javier Arpa do Hospital Universitário La Paz de Madrid, formámos o núcleo espanhol do projeto EFACTS (European Friedreich’s Ataxia Consortium for Translational Studies – Consórcio Europeu para Estudos Translacionais na Ataxia de Friedreixch), financiado pela União Europeia.
Para nós, este projeto foi vital, porque permitiu-nos ter estabilidade económica durante quase quatro anos e pudemo-nos concentrar no nosso trabalho sem a preocupação constante do financiamento. Além disso, a colaboração com os principais grupos europeus na ataxia de Friedreich, permitiu-nos ver em primeira mão o progresso nas investigações e compartilhar informações e recursos que beneficiaram os projetos de cada grupo.
Graças ao EFACTS podemos tratar de uma tela genética de diferentes vias bioquímicas potencialmente envolvidas na patologia da ataxia de Friedreich. Os resultados permitiram-nos identificar a via de sinalização do TORC1 como um modulador dos fenótipos das moscas deficitárias em frataxina, como mencionei anteriormente.
O EFACTS também nos permitiu obter um novo modelo de Drosophila para a procura de genes que possam ajudar a aumentar o nível de expressão do gene que codifica a frataxina. Este novo modelo incorpora uma série de repetições do tripleto GAA no intervalo patológico e o nosso objetivo é identificar genes cuja excesso de ativação ou silenciamento permitam modificar o grau de compactação da cromatina por efeito dessas repetições.
A obtenção deste modelo tem sido um desafio para a nossa equipa, porque poderia não ter funcionado, como às vezes acontece quando novos modelos biológicos são gerados. Eles nem sempre funcionam como os investigadores gostariam e tem que se ir modificando as estratégias para alcançar o objetivo. Bem, o tempo está a correr e esperamos identificar modificadores genéticos que permitem o aumento de expressão do gene da frataxina. Esperamos que os resultados obtidos identifiquem novos alvos terapêuticos para a ataxia de Friedreich, bem como a compreensão de como ocorre o processo de compactação da cromatina associada às repetições GAA.

Até onde se dirigem as investigações sobre a doença?
O objetivo é fazer com que os tratamentos sejam eficazes, é claro. Eu acho que é isso que todos os investigadores têm em mente, mas é necessário fazer mais investigação básica para alcançar esse objetivo. Existem aspetos menos estudados na ataxia de Friedreich, como a homeostase do cálcio e a dinâmica mitocondrial, os processos inflamatórios e o possível envolvimento de outros metais, além do ferro, nos mecanismos patológicos da doença. Estão a ser gerados novos ratos modelos em que a expressão do gene da frataxina é inibida e subsequentemente ativada em momentos diferentes do desenvolvimento da doença. Isso permitirá estudar se é possível reverter os diferentes sintomas e em que estágios da doença.
Também se estão a realizar vários estudos com foco nos tecidos mais afetados na ataxia de Friedriech. Um deles é o gânglio dorsal, de facto o primeiro em que é detetada a neurodegeneração, concentrando-se nos neurónios propriocetivos que são os mais danificados. Outro tecido afetado é o cardíaco, cuja alteração é a causa mais comum de morte, e cujo estudo está a progredir com o uso de modelos em cardiomiócitos. Os modelos de Drosophila vão-nos dar informações valiosas sobre os fatores genéticos e farmacológicos que podem modificar o curso da doença.

Mantém contato com os pacientes?
Assim é, mantemos contato direto, pelo menos uma vez por ano. Na verdade, todos os penúltimos fins-de-semana de junho, a Federação Espanhola de Ataxias (FEDAES) organiza conferências científicas e de convívio dos diferentes grupos espanhóis que trabalham em ataxia de Friedreich, apresentamos aos pacientes e suas às famílias o progresso nas nossas investigações. Ao longo do tempo temos feito bons amigos entre os pacientes, as suas famílias e os organizadores desta conferência.
Mulheres como Isabel Campos e Pilar Martín permitem que estas reuniões sejam realizadas todos os anos, mas o seu esforço não acaba aqui porque a FEDAES também mostra o seu apoio aos cientistas espanhóis e aos seus projetos além das nossas fronteiras, em reuniões e conferências da Federação Europeia de Ataxias Hereditárias e da FARA (Friedreich’s Ataxia Research Alliance – Aliança de Investigação para a Ataxia de Friedreich). Da mesma forma, a Juan Carlos Baiges temos de agradecer não só a sua presença nas reuniões internacionais das associações de pacientes, mas também o seu excelente blogue que mostra, praticamente todos os meses, tudo o que é publicado sobre este assunto.
Além disso, guardo uma memória muito especial do primeiro encontro da FEDAES em que participei e que teve lugar num mosteiro jesuíta numa pequena cidade de Valladolid, Villagarcía de Campos, um cenário onde se respirava tranquilidade. Lá conheci um cientista, Isaac Amela, do qual admirei o seu entusiasmo para investigar a patologia de que sofria, ataxia de Friedreich e com quem tive o prazer de trabalhar num projeto financiado pela Fundació La Marató da TV3. Por último, tenho que reconhecer que, naqueles encontros, os pacientes e os seus familiares me ensinaram mais do que eu e eles,porque eles me transmitiram toda uma lição de vida.


(artigo traduzido)