23 de abril de 2015

A mudança na complexidade cortical da ataxia espinocerebelosa tipo 3 (SCA3) aparece mais cedo do que os sintomas clínicos

Tzu-Yun Wang, Chii-Wen Jao, Bing-Wen Soong, Hsiu-Mei Wu, Kuo-Kai Shyu, Po-Shan Wang, Yu-Te Wu

Resumo

Os pacientes com ataxia espinocerebelosa tipo 3 (SCA3) exibiram envolvimento cortical cerebral e vários défices mentais em estudos anteriores. Clinicamente, as medições convencionais, como o Mini-Exame de Estado Mental (MMSE) e o eletroencefalograma (EEG), são insensíveis à participação cortical cerebral e défices mentais associados com a SCA3, especialmente na fase inicial da doença. Foi aplicado um método de dimensão fractal tridimensional (3D-DF), o qual pode ser utilizado para quantificar a complexidade da forma cortical dobrável, ao avaliar a degeneração cortical. Foram avaliados 48 pacientes com SCA3 geneticamente confirmados empregando escalas clínicas e exames de ressonância magnética e usando 50 participantes saudáveis ​​como grupo de controlo. De acordo com a Escala de Avaliação e Classificação de Ataxia (SARA), os pacientes com SCA3 foram diagnosticados com disfunção cortical no córtex cerebelar; no entanto, não houve diferença significativa observada no córtex cerebral, de acordo com as classificações MMSE dos pacientes. Usando o método 3D-DF, determinou-se que o envolvimento cortical foi mais amplo que o envolvimento das regiões olivopontocerebelosas tradicionais e o sistema corticocerebeloso. Além disso, a correlação significativa entre a diminuição dos valores 3D-FD e a duração da doença podem indicar atrofia do córtex cerebeloso e do córtex cerebral em pacientes com SCA3. A mudança da complexidade cerebral em pacientes com SCA3 pode ser detetada ao longo da duração da doença, torna-se especialmente importante na fase tardia da doença. Além disso, determinou-se que a atrofia do córtex cerebral pode ocorrer mais cedo do que as mudanças nos resultados do MMSE e sinais do EEG.





22 de abril de 2015

Colocar os doentes no centro da inovação futura

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) celebra o seu 20.º aniversário em 2015. Para assinalar a ocasião, organizou uma conferência destinada a analisar a melhor forma de concretizar o seu papel de colocar os doentes no centro do desenvolvimento de medicamentos inovadores.
A conferência foi uma oportunidade para Yann Le Cam, Diretor Executivo da EURORDIS, falar sobre a importância de reforçar o pilar «saúde» da missão «Ciência, Medicamentos, Saúde» através do aumento e da melhoria do envolvimento dos doentes no percurso de desenvolvimento e avaliação dos medicamentos.
Yann Le Cam comentou que «um medicamento aprovado que não responda a uma necessidade real dos doentes é apenas uma invenção, não uma inovação com significado para os doentes». De forma a aumentar a disponibilidade de medicamentos inovadores que vão ao encontro das necessidades dos doentes, é vital uma melhor definição do envolvimento dos doentes ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento dos medicamentos. Isto pode ser conseguido ao:

§  Assegurar que os doentes têm influência na orientação da indústria para as áreas em que necessitam realmente de novas opções terapêuticas que possam proporcionar a cura ou estabilizar uma doença, sobretudo em determinadas áreas de necessidades médicas por satisfazer.
§  Tornar o desenvolvimento clínico relevante para os doentes; os doentes devem ter a possibilidade de dialogar com as empresas sobre todos os aspetos relacionados com a conceção de um ensaio clínico, para que este tenha em conta critérios de avaliação do ensaio relevantes para os doentes.
§  Garantir que os doentes desempenham um papel na notificação direta de mais dados que advenham da sua vivência quotidiana com a doença. Isto permite elaborar critérios de avaliação do ensaio relevantes para os doentes.
§  Incluir os doentes na avaliação da relação risco-benefícios; quando se avaliam os riscos e os benefícios de um medicamento novo, só os doentes, enquanto especialistas na sua doença, podem legitimamente determinar quanta incerteza, risco ou danos estão dispostos a aceitar em troca dos benefícios propostos de um medicamento.

Em 2014, os representantes dos doentes e os consumidores participaram em atividades da EMA 633 vezes. Estão em constante desenvolvimento ferramentas que permitem aos doentes contribuir atempadamente para o percurso do desenvolvimento de medicamentos. Estas incluem mecanismos da EMA (órgãos de aconselhamento científico paralelo com avaliação das tecnologias da saúde (HTA)grupos de aconselhamento científicoo projeto-piloto de vias adaptáveis e o projeto-piloto sobre a avaliação dos riscos e dos benefícios) e, a nível da HTA, o projeto SEED (Shaping European Early Dialogues – Estabelecimento de Diálogos Atempados a nível Europeu – para as tecnologias da saúde).
Contudo, o desafio é tornar credível o contributo dos doentes para que seja aceite por todas as partes interessadas e tenha um impacto real. Para o fazer, as entidades reguladoras, os órgãos responsáveis pela HTA e os doentes continuam a trabalhar em conjunto para implementar as melhores e mais bem adequadas metodologias para incorporar o contributo dos doentes no processo regulamentar, especialmente de maneira a que este seja independente das companhias farmacêuticas.
Além disso, há que ter em conta que a inovação científica no desenvolvimento de medicamentos não pode estar dissociada do acesso dos doentes aos medicamentos. O envolvimento contínuo dos doentes no percurso de desenvolvimento de medicamentos deve ainda envolver todas as partes interessadas com influência na determinação do acesso dos doentes aos medicamentos, tais como as entidades reguladoras e os órgãos responsáveis pela HTA. O Diretor Executivo da EURORDIS acrescentou que «hoje, as avaliações e as decisões das várias partes interessadas são frequentemente próprias de cada instituição e tomadas isoladamente. Um conjunto de avaliações razoáveis, embora desconexas, não permite que se tome uma boa decisão final. Há necessidade de uma via integrada que assegure que os medicamentos inovadores chegam aos doentes para os quais foram desenvolvidos».
Está disponível online um vídeo da conferência da EMA; a participação de Yann Le Cam pode ser vista aqui. O livro do 20.º aniversário da EMA está disponível aqui (a contribuição da EURORDIS está na página 30).

Eva Bearryman, Junior Communications Manager, EURORDIS
Tradutores: Ana Cláudia Jorge e Victor Ferreira
Page created: 22/04/2015
Page last updated: 20/04/2015




21 de abril de 2015

Inibindo o transporte de ferro, melhora a ataxia de Friedreich em moscas da fruta

Um grupo de investigação na Universidade de Regensburg, Alemanha, que considera a ataxia de Friedreich "a ataxia recessiva mais importante na população caucasiana", está a quebrar o complexo usando moscas da fruta geneticamente modificadas. O seu trabalho mais recente, “Mitoferrin modula a toxicidade do ferro num modelo Drosophila (mosca da fruta) com ataxia de Friedreich”, aparece na revista Free Radical Biology and Medicine, o que ajudou a responder algumas das questões mais fundamentais sobre a etiologia da patogénese da ataxia de Friedreich.

"Uma das consequências patológicas [da perda da expressão da frataxina] é um aumento do transporte de ferro para o compartimento mitocondrial levando a uma acumulação tóxica de ferro reativo", escreveu o Dr. Juan A Navarro, o principal autor do estudo. "No entanto, o mecanismo subjacente a esta acumulação de ferro mitocondrial inadequada ainda é desconhecido."

Para resolver este desconhecimento, o Dr. Navarro, juntamente com o Dr. Stephan Schneuwly, investigador principal, e os seus colegas, manipularam os genes da mosca de fruta para induzir a deficiência da frataxina. Eles então alimentaram as moscas com uma dieta rica em ferro para simular a sobrecarga de ferro. Testando as moscas usando uma variedade de testes de função celular e mitocondrial, os investigadores identificaram alguns mecanismos moleculares fundamentais que contribuem para o fenótipo semelhante à ataxia de Friedreich das moscas.

No nível mais básico de observação, as moscas da fruta com deficiência da frataxina e sobrecarga de ferro tiveram uma esperança de vida útil 50% menor do que as moscas da fruta normais. As moscas com deficiência alimentadas com a dieta enriquecida com ferro também estavam em falta em dois agregados contendo enzimas de enxofre-ferro (aconitase e complexo II) em comparação com moscas com deficiência que recebem uma dieta normal e moscas normais que receberam uma dieta enriquecida com ferro.

Os investigadores também identificaram um distúrbio na expressão dos genes relacionados com o armazenamento e transporte de ferro. "As condições de sobrecarga de ferro normalmente induzem a estabilização da ferritina, a fim de promover o armazenamento de ferro", declarou o Dr. Navarro. "A sobrecarga de ferro em moscas com deficiência de frataxina levou à ablação completa da acumulação de ferritina dependente de ferro. Houve uma indução clara e robusta no mRNA de ambas as subunidades de ferritina nos alimentos com ferro nas moscas de controlo e com ataxia de Friedreich." Portanto, embora as moscas deficientes em frataxina possam sentir sobrecarga de ferro, não poderiam induzir tradução da proteína do mRNA para interagir a sobrecarga.

Para neutralizar as alterações na regulação de ferro, os investigadores aplicaram duas estratégias: promover o sequestro de ferro e prejudicar o transporte de ferro para as mitocôndrias. A primeira estratégia proporcionou benefícios marginais, o que sugere que o sequestro nem intra nem extra-mitocondrial de ferro afeta significativamente o fenótipo da ataxia de Friedreich. A segunda estratégia foi bem-sucedida. Quando os investigadores regularam o mitoferrin (um canal de transporte para o ferro na membrana mitocondrial), houve uma melhora significativa nas moscas da fruta com ataxia de Friedreich.

"Tomados em conjunto, estes resultados indicam um papel fundamental para o mitoferrin no mecanismo tóxico do ferro na ataxia de Friedreich", escreveu o Dr. Navarro. "[Também] fornece evidências de que a deficiência do transporte de ferro mitocondrial poderia ser um tratamento eficaz da doença." Os próximos passos podem envolver trabalhar com um modelo animal com ataxia de Friedreich maior para estudar os efeitos do mitoferrin sobre a patogénese clínica.




20 de abril de 2015

Traçando o perfil neurometabólico in vivo em pacientes com ataxia espinocerebelosa tipo 1, 2, 3 e 7

Adanyeguh IM., Henry PG., Nguyen TM., D. Rinaldi, Jauffret C., Valabrègue R., Emir UE., Deelchand DK., Brice A., Eberly LE., Öz G., Durr A., Mochel F.

As ataxias espinocerebelosas (SCAs) pertencem às doenças de repetição poliglutamínica e são caracterizadas por uma atrofia predominante do cerebelo e da ponte. Foi realizada uma epectroscopia de protões por ressonância magnética ((1) H MRS) usando uma localização semiadiabatica otimizada pelo protocolo seletivo de reorientação adiabatico (semi-LASER), a 3 T para determinar as concentrações de metabólitos no verme cerebelar e na ponte duma coorte de pacientes com SCA1 (n = 16), SCA2 (n = 12), SCA3 (n = 21), e SCA7 (n = 12) e controlos saudáveis ​​(n = 33). Em comparação com os controles, os pacientes apresentaram N-acetilaspartato total inferior e, em menor extensão, glutamato inferior, o que reflete a perda/disfunção neuronal, ao passo que o marcador glial, mioinositol (mio-Ins), foi elevado. Os pacientes também apresentaram maior creatina total, como relatado na doença de Huntington, outra doença de repetição poliglutamínica. Foi encontrada uma correlação forte entre a Escala de Avaliação e Classificação da Ataxia (SARA) e os neurometabolitos em ambas as regiões afetadas de pacientes. A análise de componentes principais confirmou que metabólitos neuronais (N-acetilaspartato total e glutamato) eram inversamente correlacionados no vermis e na ponte para gliais (mio-Ins) e metabólitos energéticos (creatina total), bem como a gravidade da doença (escalas motoras). Parcelas neuroquímicas com metabólitos selecionados também permitiram a separação dos SCA2 e SCA3 dos controlos. Os perfis neurometabólicos detetados nos pacientes sugerem alterações específicas celulares em compartimentos neuronais e astrocíticos que não podem ser avaliadas por outras modalidades de neuroimagem. A correlação inversa entre metabólitos a partir desses dois compartimentos sugere uma tentativa metabólica para compensar os danos neuronais nas SCAs. Porque estes biomarcadores refletem aspetos dinâmicos do metabolismo celular, são bons candidatos para ensaios terapêuticos de prova de conceito. © 2015 Internacional Parkinson e Movement Disorder Society (Sociedade Internacional das Doenças do Movimento e Parkinson)



17 de abril de 2015

Até agora não há cura, nem "grandes tratamentos", para a ataxia, uma doença neurológica debilitante, dizem os médicos da UAB (Universidade do Alabama em Birmingham – EUA)

O músico de Pelham (EUA), John Parnell, é um homem de família e atáxico; o Dr. Harrison Walker, um neurologista da Universidade do Alabama, diagnosticou Parnell em 2013; a Dra. Talene Yacoubian fundou a Clínica de Ataxia da UAB, em 2014 (fotos UAB) 

John Parnell de Pelham, 34, toca guitarra, baixo e bateria, tem um estúdio de gravação em sua casa e tem desfrutado de um amor pela música ao longo da vida. "Fazer música é o que me faz feliz", disse Parnell em Março.

Mas os dias de Parnell a tocar instrumentos podem estar, lentamente, a chegar ao fim. Ele sofre de uma condição neurológica chamada ataxia degenerativa, que pode gradualmente roubar as pessoas do uso de seus braços e pernas.

"Há uma parte do cérebro que controla as funções motoras e a doença ataca essa parte", disse Parnell. "É como estar bêbado, mas sem o estar."

"Um sintoma comum e debilitante da ataxia é o desequilíbrio enquanto anda, a incoordenação quando usa os braços e as mãos durante as atividades diárias e os distúrbios na fala," disse o Dr. Harrison Walker, do Departamento de Neurologia da Universidade do Alabama em Birmingham (UAB), que diagnosticou Parnell com ataxia em 2013, num e-mail.

Para saber mais sobre a ataxia - causas, efeitos, diagnóstico, impacto emocional e psicológico, e possíveis tratamentos – virámo-nos para Walker e para a Dra. Talene Yacoubian, que fundou a Clínica de Ataxia da UAB em 2014.

O que é a ataxia?

Como Parnell disse, a ataxia é o resultado dum ataque ao cérebro. "A ataxia é geralmente devida a danos ou disfunção do cerebelo, o qual se encontra na parte de trás do cérebro," disse Yacoubian num e-mail.

Ataxia - o nome vem da palavra grega "ataxis", que significa "sem ordem" ou "falta de coordenação" - é um termo clínico amplo, que abrange uma ampla variedade de distúrbios e doenças.

Na verdade, a ataxia não é classificada como uma doença ou distúrbio em separado, de acordo com os neurologistas da UAB. "A ataxia não é uma única doença, mas uma descrição clínica de anormalidades na coordenação", disse Yacoubian. "A ataxia cerebelosa é uma síndrome com muitas causas e não está relacionada com uma única doença", disse Walker.

Muitas variedades, difícil de diagnosticar

Existem muitos tipos diferentes de ataxia, e isto pode complicar os esforços para a diagnosticar corretamente. Há "centenas de diferentes causas" para a ataxia cerebelosa, de acordo com Yacoubian, que disse que algumas causas são "genéticas (hereditárias)" e muitas mais são "esporádicas ou adquiridas."

Essas causas "esporádicas" podem incluir acidentes vasculares cerebrais, esclerose múltipla, deficiências vitamínicas, abuso de álcool, toxicidade de medicamentos, doenças autoimunes, tumores e infeções.

As causas genéticas da ataxia são "raras", de acordo com Yacoubian. "Há talvez 100-200 diferentes genes que têm sido associados com ataxias, mas a lista de mutações genéticas que podem causar ataxia está a crescer rapidamente, devido aos avanços tecnológicos no sequenciamento genético."

Os médicos de Parnell na UAB ainda estão a tentar fazer um diagnóstico completo e final. "Eles sabem que é uma forma de ataxia genética, mas não identificaram o tipo que tenho", disse ele.

Parnell tem algum conforto no fato de que a ataxia provavelmente não vai matá-lo ou prejudicar as suas capacidades cognitivas, mas ele e sua esposa, Erin, não podem ter certeza exatamente o quão longe os sintomas podem progredir. "Eu posso acabar numa cadeira de rodas, um dia, mas eu ainda posso ter o uso dos meus braços", disse ele. "Eu posso acabar numa cadeira de rodas e não ter o uso de meus braços."

Não é incomum para os pacientes enfrentarem este tipo de incertezas quanto à ataxia, de acordo com Yacoubian. "Por causa do grande número de possíveis causas da ataxia, pode demorar algum tempo para determinar a causa da ataxia dum paciente, e às vezes não somos bem-sucedidos a encontrar a causa", disse ela.

Em alguns pacientes com formas genéticas de ataxia, "a causa não é clara, mesmo depois de extensos testes de diagnóstico", disse Walker.

Alguns tipos não-genéticos de ataxia são um pouco mais fáceis de diagnosticar, de acordo com Walker. "Se a ataxia é de uma lesão estrutural... a etiologia pode ser determinada prontamente razoavelmente com imagens", disse ele, citando exemplos como tumores e acidentes vasculares cerebrais.

Os sinais precoces da ataxia incluem "Incoordenação ou desequilíbrio nas pernas, falta de coordenação dos braços/mãos e fala anormal", disse Walker. "Os sinais podem ser subtis no início."

Ainda não há cura, nem "grandes tratamentos”

De momento, não há "grandes tratamentos" e nenhuma cura para a ataxia, de acordo com Walker.

"Por causa da grande variedade de causas (da ataxia), um diagnóstico específico é muitas vezes difícil de determinar para os pacientes – o que limita as suas opções de tratamento", de acordo com a página web da Clínica de Ataxia.

No entanto, "dependendo da causa" da ataxia dum paciente, "os medicamentos, por vezes, podem ser úteis para os pacientes", disse Walker.

Parnell disse que há, por exemplo, medicamentos que podem fazer as suas pernas se sentirem menos pesadas. No entanto, os medicamentos têm efeitos secundários desagradáveis, tais como sonolência. "Eu prefiro aguentar e lidar com isso, do que arruinar o meu fígado mais do que eu já o fiz", disse ele.

Alguns dias são melhores do que outros para Parnell, a quem já lhe custa andar. "Nos dias maus isso afeta a minha voz e eu falo como se estivesse a insultar alguém", disse ele. "Não afetou muito os meus braços. Tive alturas onde eles estiveram fracos. Eu tenho alturas onde tenho o que chamo de tremeliques."

Sofrimento emocional

A ataxia vem com uma carga emocional e psicológica significativa para os pacientes e os seus entes queridos. No caso de Parnell, significou Erin e a filha de dois anos de idade, Nora.

O diagnóstico de Parnell - e que ele e Erin posteriormente leram na internet sobre os efeitos devastadores das diversas formas de ataxia – afetou-o bastante. "Eu não me vou sentar aqui e mentir", disse ele. "Chorei."

Porque a ataxia carece de uma cura ou tratamentos eficazes, os pacientes "muitas vezes sentem graves deficiências que limitam a sua mobilidade, a sua capacidade de trabalho, a sua capacidade para cuidar da família", disse Yacoubian.

"Compreensivelmente, os pacientes com ataxia estão sob stress significativo e muitas vezes sofrem de depressão e ansiedade", disse ela. "Algumas das ataxias também pode causar comprometimento cognitivo que contribui para a deficiência."

Os familiares e cuidadores "também estão sob muita pressão e podem sofrer um esgotamento", disse Yacoubian.

Erin chama John "o melhor marido e pai", e disse que ela está pronta para o desafio. "Eu vou cuidar dele", disse ela. "É um voto de casamento que eu nunca vou encarar de ânimo leve."

'Não é um sintoma incomum'

Estima-se que 150 mil americanos são afetados por ataxia genética ou esporádica, de acordo com a Fundação Nacional de Ataxia (NAF).

Embora seja "muito difícil" estimar o número de pessoas em Birmingham ou Alabama, que podem ter ataxia, Walker disse que "não é um sintoma neurológico raro, especialmente se se tiver de reunir todos os diferentes tipos de ataxia - degenerativa, tumores cerebrais genéticos, derrames, esclerose múltipla - em conjunto ".

A Clínica de Ataxia realiza-se uma vez por mês e, normalmente, vê cerca de oito pacientes por clínica, de acordo com Yacoubian. "Mas as marcações da clínica já estão preenchidas até longe no futuro", disse ela. "Provavelmente, a Clínica terá que ser realizada com maior frequência."

Muitos estudos

Enquanto isso, a investigação em ataxia está sendo realizada na UAB e muitos outros lugares, de acordo com Yacoubian, que recentemente se tornou membro do Consórcio de Investigação Clínica em Ataxias Espinocerebelosas, um consórcio nacional de investigadores.

Marek Napierala, um membro do corpo docente do Departamento de Bioquímica e Genética Molecular da UAB, está a realizar investigações na ataxia de Friedreich e outras formas genéticas, de acordo com Yacoubian.

Há outros estudos ativos na Europa e nos EUA. Muitos estudos são financiados pela Fundação Nacional de Ataxia (NAF).

‘Eu não tinha ideia do que era’

Parnell - que prometeu gravar e lançar como música que puder enquanto puder, a maior parte pela sua própria editora - quer usar os seus esforços para aumentar a consciência pública sobre a ataxia.

"O objetivo é chamar a atenção para esta doença que eu tenho e que milhões têm, porque, para ser sincero, não é uma doença que a maioria das pessoas conheça", disse ele. "Eu não tinha ideia do que era até que fui forçado a olhar no espelho e lidar com ela."




16 de abril de 2015

Investigadores descobrem nova estratégia terapêutica para ataxia de Friedreich




Investigadores da Universidade de Roma "Tor Vergata" (Itália) e da empresa Fratagene Therapeutics Ltd. (Irlanda) revelaram uma nova estratégia terapêutica para a ataxia de Friedreich baseada em pequenas moléculas específicas. O estudo foi publicado na revista Neurobiology of Disease e é intitulado "Moléculas altamente específicas competidoras de ubiquitina efetivamente promovem a acumulação de frataxina e resgatam parcialmente o defeito acónito nas células de ataxia de Friedreich."

A ataxia de Friedreich é uma doença neurodegenerativa rara e hereditária que atinge crianças e adultos jovens. É caracterizada pela lesão progressiva do sistema nervoso com degeneração da medula espinal e nervos periféricos que levam a fraqueza muscular, perda sensorial, dificuldades de equilíbrio e perda da coordenação dos movimentos musculares voluntários. Os doentes frequentemente desenvolvem cardiomiopatia, uma condição em que a função do músculo (miocárdio) do coração é comprometida e uma das principais causas de morte prematura nestes pacientes. A doença leva à incapacidade progressiva, à dependência de uma cadeira de rodas e expectativa de vida reduzida. Estima-se que a ataxia de Friedreich tenha uma prevalência de 1: 50.000 na população caucasiana. Atualmente, não há tratamento eficaz e os pacientes morrem prematuramente.

A ataxia de Friedreich é causada por uma mutação num gene chamado frataxina (FXN), o que leva a uma redução no mensageiro ARN e subsequente redução da expressão da proteína frataxina, causando disfunção mitocondrial, perturbações da homeostase de ferro e, finalmente, a morte celular.

Quanto menores forem os níveis de frataxina, quanto maior a gravidade da progressão da doença, e como tal, várias estratégias terapêuticas têm como objetivo aumentar os níveis de proteína frataxina nestes pacientes, quer promovendo a expressão do gene FXN ou através da prevenção da degradação da proteína frataxina nas células. Este estudo centrou-se na última estratégia.

Foi anteriormente relatado que uma quantidade considerável da proteína precursora frataxina é degradada na célula por um sistema denominado de ubiquitina/proteassoma, o sistema mais importante para a degradação intracelulares de proteínas. Foi também demonstrado que as pequenas moléculas específicas podem encaixar no sítio da ubiquitinação da frataxina (na lisina 147) e evitar a ubiquitinação da frataxina (adição de moléculas de ubiquitina em resíduos de lisina da marcação da proteína para a degradação) e subsequente degradação. Estas pequenas moléculas potencialmente terapêuticas foram chamadas compostos de moléculas competidoras de ubiquitina (UCM) e podem levar a um aumento nos níveis de frataxina.

Neste estudo, a busca por UCM efetivas foi ampliada e moléculas novas e mais potentes foram localizadas. Estas UCM de "segunda geração" foram encontradas para interagir fisicamente com a frataxina e evitar a sua ubiquitinação, promovendo um aumento nos níveis de frataxina.

As UCM foram consideradas ineficazes em mutantes de frataxina, que são resistentes à ubiquitinação devido a uma mutação na lisina 147, sugerindo que a atividade das UCM ocorre através da inibição da ubiquitinação no sítio da lisina 147 da frataxina. Os investigadores também descobriram que as UCM não só promovem a acumulação da frataxina nas células, mas também restaura a atividade aconitase (uma proteína ferro-enxofre, altamente dependente dos níveis de frataxina e cuja atividade é reduzida na ataxia de Friedreich) em células derivadas de pacientes, apoiando fortemente a seu potencial aplicação terapêutica.

A equipe de investigação concluiu que as UCM ligam-se diretamente à proteína frataxina, impedindo a sua ubiquitinação e degradação, e levando a um aumento dos níveis de frataxina. A equipa acredita que as UCM podem representar uma nova estratégia terapêutica para a ataxia de Friedreich.


  

15 de abril de 2015

A Clínica Genética do Futuro

A reunião inicial da Clínica Genética do Futuro (CGF) teve lugar recentemente em Bruxelas. O que é o projeto e o que significa para os doentes?
A tecnologia utilizada para a sequenciação de próxima geração (SPG) do ADN desenvolveu-se rapidamente nos últimos cinco anos, pelo que os seus custos e o tempo que demora a ler o ADN de um indivíduo são agora bastante inferiores. Por conseguinte, novas tecnologias genómicas como a SPG estão a ser cada vez mais adotadas para o diagnóstico de doenças genéticas.
A ideia subjacente ao Projeto CGF é trabalhar para cartografar todas as oportunidades e desafios que rodeiam a implementação clínica destas tecnologias genómicas para que as necessidades, os interesses e as preocupações dos doentes e de outras partes interessadas relevantes sejam tidos em conta no futuro.
Dada a natureza confidencial dos dados pessoais produzidos por estas tecnologias, é necessário analisar questões complexas sobre questões como a partilha de dados e o consentimento informado. Através do Projeto CGF, a expetativa é que seja possível compreender a forma de aproveitar o potencial destas tecnologias para os cuidados de saúde, sem deixar de respeitar os enquadramentos éticos e regulamentares fundamentais.
Para assegurar que são cumpridas as expetativas e as necessidades da sociedade, e em particular dos doentes, na implementação alargada destas tecnologias, a CGF irá envolver todas as partes interessadas relevantes (representantes dos doentes, investigadores na área da genómica, bioinformáticos, responsáveis pela elaboração de políticas, especialistas em ética, etc.) no diálogo e, consequentemente, elaborar recomendações sobre a forma de incorporar tecnologias como a SPG no percurso do diagnóstico.
No âmbito deste projeto, a EURORDIS irá colaborar com especialistas de outros parceiros para realizar um inquérito às perspetivas dos doentes. Os resultados deste inquérito serão publicados num livro branco que incluirá recomendações para novas abordagens à recolha, armazenamento e distribuição de dados clínicos.
Para mais informações sobre o projeto, envie um e-mail para mathieu.boudes@eurordis.org.



Eva Bearryman, Junior Communications Manager, EURORDIS
Tradutores: Ana Cláudia Jorge e Victor Ferreira
Page created: 15/04/2015
Page last updated: 14/04/2015