24 de abril de 2013

A primeira conferência do IRDiRC catalisa a colaboração no domínio da investigação sobre doenças raras

O Consórcio Internacional de Investigação sobre Doenças Raras (IRDiRC) foi criado em abril de 2011, por iniciativa da Comissão Europeia e dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA para incentivar a colaboração internacional na investigação das doenças raras. O IRDiRC reúne investigadores e associações que investem na investigação das doenças raras para ajudar a concretizar dois objetivos principais: lançar 200 novas terapêuticas para as doenças raras e meios para diagnosticar a maioria destas doenças até ao ano 2020.
A primeira Conferência do IRDiRC realizou-se em Dublin, na Irlanda, a 16 e 17 de abril de 2013, organizada pela Comissão Europeia em associação com a presidência irlandesa do Conselho da União Europeia. Reunindo mais de 400 partes interessadas da área das doenças raras de todo o mundo, a conferência arrancou com uma sessão plenária dedicada às oportunidades e aos desafios com que se deparam as parcerias internacionais e à colaboração no domínio das doenças raras, antes de se repartir por três temas específicos: as terapias, os diagnósticos e as abordagens interdisciplinares. A experiência e perspetiva dos doentes foi parte integrante de toda a agenda.
Avril Daly (vice-presidente da EURORDIS e presidente da Associação de Doenças Genéticas e Raras, da Irlanda) apresentou a perspetiva dos doentes durante a sessão da linha temática «Diagnóstico» The Depth of Rare Diseases (a profundidade das doenças raras), a qual refletiu sobre o impacto que as doenças raras não diagnosticadas têm sobre os cuidados dos doentes e analisou as iniciativas que existem para diagnosticar as mais de 3000 doenças raras cuja causa não foi descoberta até à data. Avril ilustrou o percurso da investigação gerida por doentes, desde o diagnóstico ao desenvolvimento de curas, introduzindo desafios passados e atuais de projetos de investigação de doenças da retina na Irlanda.
A Diretora de Desenvolvimento Terapêutico da EURORDIS, Maria Mavris, contribuiu com o ponto de vista dos doentes para a sessão Facing the Challenges (enfrentar os desafios), que teve em consideração as questões éticas, económicas e políticas relacionadas com a investigação sob a égide do IRDiRC, incluindo os resultados imprevistos e a partilha de dados. Maria mostrou como os doentes encaram os desafios, envolvendo-se de perto em todas as fases da investigação e do desenvolvimento de terapêuticas.
Numa sessão dedicada ao Regulatory Dialogue to Optimise Orphan Drug Development (diálogo ao nível da regulação para otimizar o desenvolvimento de medicamentos órfãos), o diretor executivo da EURORDIS, Yann Le Cam, apelou às entidades reguladoras para que adotem uma declaração sobre flexibilidade regulamentar para a aprovação de medicamentos órfãos: «É necessário que as agências de regulação do outro lado do Atlântico assumam uma política que defina claramente vias mais flexíveis para o desenvolvimento de medicamentos órfãos. Isto é vital para acelerar o acesso dos doentes às terapêuticas
Diversos elementos foram identificados como cruciais para atingir os objetivos do IRDiRC: o diálogo entre todas as partes interessadas e em todas as fases do desenvolvimento clínico e científico; a flexibilidade – das entidades reguladoras e de outros intervenientes –; a partilha de dados; e a colaboração a nível financeiro e da investigação. A primeira conferência do IRDiRC serviu para impulsionar e gerar entusiasmo acerca destes temas. Estão já a ser exploradas potenciais colaborações entre as várias partes interessadas.

Tradutores: Ana Cláudia Jorge e Victor Ferreira
 
 

14 de abril de 2013

As mudanças de uma vitamina num gene


Um potencial novo tratamento para ataxia de Friedreich?

A ataxia de Friedreich é uma doença debilitante, incurável. Uma doença neurodegenerativa que frequentemente surge na infância, uma doença hereditária que rouba a coordenação e funções motoras ao longo do tempo. O discurso torna-se arrastado, a mobilidade condicionada ao ponto de tornar-se uma deficiência grave frequentemente até aos 30 anos e estes pacientes estão também nos grupos de risco de desenvolver diabetes e cardiomiopatia. Mas a nova pesquisa do CSC promete uma nova abordagem terapêutica, usando um suplemento vitamínico disponível, para modificar os controlos epigenéticos do defeito genético que causa a doença.

 

Os sintomas da ataxia de Friedreich são causados por uma deficiência na proteína frataxina. Uma mutação que cria triplas que ao repetir os danos do ADN, danifica o gene que normalmente codifica a proteína frataxina, efetivamente silenciando-a. Uma pesquisa publicada na Human Molecular Genetics revela como funciona este processo e sugere como pode ser combatido. Richard Festenstein (chefe do Mecanismos de Controlo Genético e da Doença) explica: "O silenciamento de genes é característico de algo chamado Efeito de Posição Variegação (PEV) – um fenômeno epigenético arquetípico em que genes são silenciados por heterocromatina e sensível a modificadores". Esta conclusão abre portas a uma potencial terapia. Se o mecanismo silencioso pode ser invertido, a expressão desse gene poderia ser retornada a níveis normais.

 

"Identificámos algo," diz Festenstein, "que volta a ligar este gene nas células nos tecidos corretos. Em grandes doses, a nicotinamida – vitamina B3 – poderia ser capaz de restaurar os níveis de frataxina duas, três vezes, até níveis assintomáticos." Esta descoberta é o culminar de mais de uma década de trabalho para Festenstein. "Em 1996 demonstrámos que o PEV poderia acontecer num mamífero. Em 2003 demonstrámos que a repetição de triplas poderia induzir este tipo de silenciamento in vivo em ratos." Agora, aplicar esse conhecimento na ataxia de Friedreich produziu resultados potencialmente excitantes.

 

"A nicotinamida está fácil e prontamente disponível e tem um perfil de segurança forte, pois já é tomado como um suplemento vitamínico”, diz Festenstein. Então, como funciona? Para a heterocromatina se formar, as proteínas histonas em torno do qual o ADN se enrola devem ser metilatadas. Para que isso aconteça, primeiro um grupo acetilénico deve ser removido. Inibindo uma enzima que remove o grupo acetilénico, a nicotinamida aumenta a acetilação e, portanto, baixa a redução de metilação-heterocromatinanização. “Descobrimos que o locus estava numa estrutura mais fisicamente aberta após a adição de nicotinamida. Isso é o que se esperaria de um gene que está ativo."

 

Reativando o gene silenciado poderia ser a chave para a luta contra a neurodegeneração experimentada por pessoas com ataxia de Friedreich. Apesar do potencial, Festenstein continua a ser cauteloso: "É importante que os pacientes não começam a tomar o medicamento ainda. Estamos agora a dar início a um ensaio clínico exploratório, e esperamos que nos dê uma ideia melhor se isto poderia ser um tratamento eficaz, seguro e de confiança. " E isto pode ser o início: "Com a ascensão do sequenciamento de última geração torna-se mais fácil olhar para as sequências de ADN em torno de genes. Este poderia ser um protótipo para muitas outras doenças. Talvez seja apenas a ponta do iceberg."

 

Referência: Chan, P. K., Torres, R., Yandim, C., lei, P. P., Khadayate, s., Mauri, M., Grosan, C., Chapman-Rothe, s., Giunti, P., Pook, M., Festenstein, R., Março de 2013.