30 de janeiro de 2017

Um sistema celular torna a batalha contra uma doença rara, pessoal


Algumas doenças não são tratáveis ​​porque não temos um sistema modelo para entender completamente os sintomas ou testar possíveis medicamentos. Os cientistas do Centro Max Delbrück de Medicina Molecular da Associação Helmholtz (MDC), Alemanha, desenvolveram agora uma nova estratégia personalizada para tratar a doença mitocondrial através da reprogramação das células dos pacientes e usando-as para identificar um potencial medicamento promissor. 

As mitocôndrias, compartimentos nas células que produzem a maior parte da sua energia, são únicas porque têm seu próprio ADN, que é herdado apenas da mãe da pessoa. As mutações em genes mitocondriais muitas vezes causam doenças neurológicas, porque as células nervosas precisam de altos níveis de energia para a sua função. 

Recentemente, tornou-se possível resolver este problema para as mães portadoras de uma mutação mitocondrial. Os cientistas podem substituir as mitocôndrias do óvulo materno pelas mitocôndrias de um doador saudável. Isso dá ao bebê três pais genéticos: ADN no núcleo da mãe e do pai, e da mitocôndria do doador. 

Esta estratégia não é uma opção para cada família que carrega uma mutação mitocondrial. A maioria dos países não permite que os cientistas modifiquem ovos humanos. E a estratégia é puramente preventiva - não vai ajudar as crianças que já herdaram mutações. Isto tem motivado grupos como o de Alessandro Prigione no MDC a continuar a procurar outras soluções. 

Por que a investigação das doenças mitocondriais é difícil 

"Uma das principais razões pelas quais nos faltam bons modelos para investigar essas doenças é que as técnicas altamente refinadas que usamos para modificar genes no núcleo não funcionam para o ADN mitocondrial", diz Prigione. "Isso causa uma falta de modelos animais. Os sistemas de cultura de células usados ​​hoje também não representam fielmente as características dos neurônios humanos". Um grande desafio foi encontrar uma maneira de entender melhor a forma como a doença afeta as células nervosas humanas. 

Outra questão é que seria importante observar os efeitos dos medicamentos nas células - especificamente os tipos que são mais atingidos pela doença - antes de administrá-los aos pacientes. A célula da pele, que é bastante fácil de cultivar em laboratório, lida de forma muito diferente com mitocôndrias defeituosas, em relação a uma célula nervosa. Um medicamento pode afetá-las de maneiras completamente diferentes. 

Uma nova estratégia para a avaliação de medicamentos 

Prigione e sua equipa podem agora ter resolvido esses problemas de uma só vez e publicaram as suas descobertas em Cell Stem Cell. Com a estudante de doutoramento Carmen Lorenz no MDC e no Instituto de Saúde de Berlim (BIH), ele juntou-se a outros investigadores e cientistas do MDC de França para criar um novo sistema baseado em células para a realização da avaliação de medicamentos. 

A estratégia envolve a extração de células da pele de pacientes com mitocôndria defeituosa e revertê-las num tipo mais básico de célula chamada célula estaminal pluripotente induzida (célula iPS). Estas podem agora ser "reprogramadas" para assumir outro destino, como os neurônios afetados pela doença mitocondrial. 

"Foi crucial estabelecer um sistema celular com características semelhantes das células nervosas afetadas nos pacientes", diz Prigione. "Descobrimos que as células progenitoras neurais apresentam propriedades que podem ser associadas com a doença e eram perfeitamente adequadas para uso de avaliação de medicamentos em larga escala". Vários testes demonstraram que estas células criadas artificialmente tinham todas as propriedades dos nervos afetados, Incluindo o desequilíbrio de cálcio e a produção de energia reduzida observada em pacientes. 

Primeiras experiências promissoras 

O próximo passo foi expor as células progenitoras neurais a 130 substâncias que já haviam sido aprovadas pela FDA para uso no tratamento de outras doenças. As medidas funcionais das células mostraram que um medicamento chamado avanafil inverteu alguns dos desequilíbrios celulares causados ​​pelo defeito mitocondrial. 

"Avanafil é um medicamento aprovado, que é extremamente promissor", diz Prigione. "Podemos passar diretamente para a próxima etapa de ensaios em pacientes humanos. Estamo-noa preparar para isso no momento. Também estamos a continuar a testar muitos mais compostos. Uma vez que tenha-mos um bom sistema modelo, podemos selecionar vários milhares de medicamentos já aprovados pela FDA. Isso cria o potencial de desenvolver tratamentos verdadeiramente personalizados - mesmo para doenças muito raras." 
O estudo foi publicado em Cell Stem Cell. 


FDA – Food and Drug Administration – Entidade norte-americana que regula os alimentos e medicamentos 


(artigo traduzido) 


Rosario Marsón, paciente de ataxia de Friedreich, da Argentina




Por Rosario Marsón, paciente de ataxia de Friedreich, da Argentina, para "Gpatax 





Olá… O meu nome é Rosario Marsón... Atualmente, tenho 48 anos... E foi Norma, da 'Gpatax', quem me convidou a contar a minha história de vida, que talvez assim pudesse ajudar outros atáxicos e motivá-los... Mesmo com uma doença como a ataxia de Friedreichuma pessoa pode continuar a viver com dignidade… 

Nasci no campo, em Francisco Madero, perto de Pehuajó, na província de Buenos Aires, em 1968. 

Somos três irmãs: A minha irmã mais velha também sofria de ataxia de Friedreich... Falo no passado, porque ela faleceu a 5 de maio de 2016. Ela tinha diabetes, arritmia, pneumonia e bactérias no sangue… Pobre mana, que descanse em paz...! Porque, realmente, essa era a sua vontade... Nunca quis lutar... apenas queria andar... esse era o seu único objetivo... Por isso, estou convencida de que, finalmente, ela descansa em paz... 

Quando estava a terminar o ensino secundário, com cerca de 16 anos, começaram os sintomas da minha doença. Não era nada de novo para mim, porque eu via a minha irmã... Isso não era obstáculo para travar a minha vida... Segui com os meus estudos e decidi tirar Direito... Acredito profundamente em Deus... “Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?” (carta de São Paulo aos Romanos, 8, 31)... e também a inestimável ajuda dos meus pais, que me acompanharaà cidade e que foram os meus apoios ou as minhas pernas… 

Quero fazer um comentário, ainda que não seja algo de que me orgulhe: simplesmente aconteceu. Em todos os anos que estudei para ser advogada, não fui ao médico: coloquei umas palas para não olhar para os lados e seguir em frente... Não fui ao médico... Não tomei medicamentos... Não fiz fisioterapia... Apenas estudei... Aos 23 anos recebi o diploma... Mas a partir daí, começou um autêntico calvário para encontrar trabalho... 

Imediatamente comecei a trabalhar em qualquer coisa, menos no que eu tinha estudado. Até que em 1995, encontrei trabalho no Poder Judicial, especificamente no Supremo Tribunal da província de Buenos Aires... e ainda lá estou, com 22 anos de trabalho... 

Uma vez tranquila e com trabalho, decidi voltar ao médico... E em 1997 fui a Cuba, ao CIREN (Centro Internacional de Reabilitação Neurológica), por 93 dias, para reabilitação... Tenho-os bem contados, porque perdi horrores por 3000… 

Lá era capaz de andar em paralelo e tive muitíssimos avanços. Mas então, quando voltei para o meu país, voltei atrás, pois é impossível manter o mesmo ritmo, pelo menos para mim... Tinha uma vida e foi a isso que me dediquei, mas paralelamente continuava com o tratamento e fazia reabilitação 

Aos 45 anos, apaixonei-me por um homem que vive em San Luisé atáxico e como eu, tem ataxia de Friedreich. É muito corajoso... tem uma filha de 9 anos. Conheci-o no Facebook, ambos eramos membros de um grupo espanhol chamado "Ataxia e atáxicos". O amor mudou minha vida completamente: primeiroele quis vi com os seus pais. E depois, juntos, temos conhecido Cataratas, Corrientes, Rosario, San Luis, Mendoza... Temos andado de teleférico. E agora, se Deus quiser, vamos a San Rafael, fazer rafting adaptado… 

Uma das primeiras coisas que disse a Agustin quando o conheci, foi que todas as coisas, tudo o que queríamos, talvez fosse mais complicado para nós, mas que não seria por isso que o deixaríamos de fazer, nem que tivéssemos de arranjar maneira de tornar possível tudo o que nos era difícil. E é isso que fazemos o tempo todo… 

Sim, fico deprimida e eu estou triste às vezes... se não, não seria humana: mas isso não dura muito tempo porque, como eu disse anteriormente, acredito profundamente em Deus. E Ele me levanta e me ensina que não tenho que olhar para o copo vazio… 

Se estas palavras simples servirem de motivação a alguém para perceber que tudo na vida é possível, desde que a isso nos proponhamosficaria mais do que feliz… 

Bem-haja a todos... Força, muita força! 


Gpatax” – agrupamento argentino de pacientes atáxicos, familiares e amigos (http://www.gpatax:com.ar 


(artigo traduzido)